Page 66 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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O ELEFANTE REBOCADOR





      Pelas seis horas da manhã de segunda-feira, o sol ergueu-se no horizonte. As nuvens tinham
      desaparecido  e  brando  sopro  refrescava  os  primeiros  alvores  matinais.  A  terra,    toda
      perfumada, surgiu de novo aos olhos dos viajantes.  O balão, que estivera girando sobre si
      mesmo entre correntes  opostas, pouco tinha derivado. O doutor, deixando contrair  o gás,
      desceu com o intuito de tomar direção mais setentrional. Durante muito tempo foram vãs as

      suas tentativas. Um vento arrastou-o para oeste, até à vista das célebres montanhas da Lua, que
      se  arredondavam  em  semicírculo  à  volta    da  ponta  do  lago  Tanganica.  A  cadeia,  pouco
      acidentada,    destacava-se  contra  o  horizonte  azulado.  Dir-se-ia  fortificação    natural,
      inacessível aos exploradores do centro da África.  Alguns cones isolados tinham a marca das
      neves eternas.
      – Estamos em região inexplorada  explicou o doutor.  O capitão Burton adiantou-se muito para

      o este, mas não  pôde alcançar estas montanhas célebres, chegando mesmo a  negar-lhes a
      existência,  confirmada  por  seu  companheiro    Speke.  Pretende  que  elas  nasceram  na
      imaginação deste último. Para nós já não há dúvida possível.
      – Vamos atravessá-las?  perguntou Kennedy.
      –  Não,  se  Deus  quiser.  Espero  encontrar  vento  favorável    que  me  leve  para  o  equador.
      Esperarei,  se  for  preciso,  e  procederei  no  Vitória  como  em  navio  que  solta  a  âncora  para
       resistir aos ventos contrários.

      As  previsões  do  doutor  não  demorariam  a  realizar-se.    Depois  de  haver  experimentado
      diferentes alturas, o Vitória  deslizou para nordeste com velocidade moderada.
      – Vamos em boa direção  disse ele, consultando a bússola  e apenas a setenta metros da terra,
      com todas as circunstâncias favoráveis para reconhecer estes países novos.  O capitão Speke,
      indo à descoberta do lago Ukereué, subiu mais para leste.
      – Iremos muito tempo assim?  perguntou Kennedy.

      – É possível. Nossa intenção é insistir para o lado das  nascentes do Nilo e temos mais de mil
      quilômetros a percorrer até o limite extremo alcançado pelos exploradores vindos do norte.
      – E não vamos descer um instante, para desentorpecer  as pernas?  atalhou Joe.
      – Naturalmente. E como necessitamos poupar os nossos  víveres, pelo caminho, meu bravo
      Dick, tu nos conseguirás  uma provisão de carne fresca.
      – Sem dúvida, amigo Samuel.
      – Teremos também de renovar a nossa provisão de água.  Quem sabe se não seremos levados

      a terras áridas? As precauções nunca são demasiadas.
      Ao meio-dia o Vitória achava-se a vinte e nove graus e  quinze minutos de longitude e a três
      graus  e  quinze  minutos    de  latitude.  Ia  passando  sobre  a  aldeia  de  Uiofu,  extremo    limite
      setentrional  do  Unyamwezy,  ao  lado  oposto  do  lago  de    Ukereué,  que  ainda  não  se  podia
      avistar.
      Foi decidido entre os três viajantes que a descida se faria  rio primeiro ponto favorável. Seria

      uma demora prolongada  e o aeróstato sofreria revisão completa. A chama do maçarico foi
      moderada,  as  âncoras  jogadas  para  fora  da  barca  logo    roçaram  as  altas  ervas  de  imenso
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