Page 61 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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TEMPORAL
Aí está para que serve fazer-se passar por filho da Lua sem sua permissão observou Joe. O
satélite por pouco não nos pregou boa peça! Por acaso o meu amo lhe comprometeu a
reputação com a sua medicina?
– É verdade interveio o caçador , quem é, afinal, o sultão de Kazeh?
– Um velho borracho meio morto respondeu o doutor cuja morte não será muito sentida. Mas
a moral da história é que as honras são efêmeras e convém sempre não lhes tomarmos o gosto.
– É penal tornou Joe eu até gostava. Ser adorado! Fazer-me de deus conforme a fantasiai
Mas a Lua mostrou-se vermelha, sinal de que não estava satisfeita!
Durante os comentários, nos quais Joe examinou o astro noturno de ponto de vista
inteiramente novo, o céu cobriu-se de grossas nuvens para o norte sinistras e carregadas.
Vento rijo, que se formara a cem metros do solo, impelia o Vitória para nor-nodeste. Por
cima, a abóbada azul estava limpa, mas sentia-se o peso.
Pelas oito horas da noite, os viajantes acharam-se a trinta e dois graus e quarenta minutos de
longitude e quatro graus o dezessete minutos de latitude. As correntes atmosféricas, sob a
influência de tempestade próxima, arrastavam-nos com velocidade de cinqüenta e seis
quilômetros por hora. Por baixo, deslizavam-se rapidamente as férteis e onduladas planícies
de Mfuto. O espetáculo era admirável e foi admirado.
– Estamos em pleno país da Lua explicou Fergusson pois ele conservou o nome que lhe deu
a antiguidade, decerto porque a Lua aí foi adorada em todos os tempos. E uma região
maravilhosa e dificilmente se encontraria vegetação mais bela.
– Se encontrássemos coisa assim, perto de Londres, não seria natural disse Joe. Por que será
que tais maravilhas são reservadas a países tão bárbaros?
– Mas sabe-se lá se um dia esta região se tornará o centro da civilização? retrucou o doutor.
Os povos do futuro talvez venham para cá, quando as terras da Europa estiverem esgotadas e
não puderem alimentar seus habitantes.
– Você crê mesmo nisso? perguntou Kennedy.
– Sem dúvida. Veja a marcha dos acontecimentos. Considere as migrações sucessivas dos
povos e chegará à mesma conclusão que eu. A Ásia foi a primeira nutriz do mundo, não é
verdade? Durante quatro mil anos, talvez, ela trabalha, é fecunda, produz e depois, quando as
pedras se desenvolverem lá onde se desenvolviam as searas douradas de Homero, seus filhos
abandonam o seio esgotado e seco. Atiram-se então sobre a Europa, jovem e pujante, que os
nutre há dois mil anos. Mas já não tem a mesma facilidade. Suas faculdades produtivas
diminuem cada dia que passa. As doenças novas, que afligem anualmente os produtos da
terra, colheitas adulteradas, recursos insuficientes, tudo isso é o sinal insofismável de
vitalidade que se altera, de enfraquecimento próximo. Também já vemos os povos se
precipitarem às nutritivas fontes de riqueza da América, como a uma fonte não inesgotável,
mas ainda não esgotada. Por seu lado, o novo continente também envelhecerá. Suas florestas
virgens cairão sob o machado da indústria. O solo se debilitará por ter produzido demais o
que dele exigiram. De lá, onde duas colheitas desabrocham cada ano, mal sairá uma. Aí,

