Page 71 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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AS FONTES DO NILO





      No  dia  seguinte,  logo  às  cinco  horas,  começaram  os    preparativos  da  partida.  Joe,  com  o
      machado que, felizmente,  tornara a encontrar, cortou os dentes do elefante. O Vitória,  outra
      vez livre, levou os viajantes para nordeste a uma velocidade de trinta e cinco quilômetros.
      O doutor estabelecera cuidadosamente a sua posição pela  altura das estrelas, durante a noite
      anterior, que era de dois  graus e quarenta minutos de latitude abaixo do equador.  Transpôs as

      rampas de Rubembé e encontrou mais tarde, em  Tenga, os primeiros contrafortes da cadeia de
      Karagwah  que, na sua opinião, deriva necessariamente das montanhas  da lua. Ora, a antiga
      lenda que considerava aquelas montanhas o berço do Nilo, não andava longe da verdade, pois
       elas confinam com o lago Ukereué, pretenso reservatório das  águas do grande rio.
      De Cafuro, grande distrito de mercadores do país, avistou  por fim no horizonte aquele tão
      desejado  lago  que  o  capitão  Speke  entreviu  a  três  de  agosto  de  1858.  Samuel  Fergusson

        comoveu-se.  Estava  quase  alcançando  um  dos  pontos  principais  da  sua  exploração  e,  de
      luneta  em  punho,  não  perdia    um  recanto  daquela  misteriosa  região  que  o  seu  olhar  assim
       detalhava: por baixo, um solo geralmente estéril, à exceção  de algumas ravinas cultivadas; o
      terreno, semeado de cones  de altura média, tendia a achatar-se nas proximidades do lago e
      campos  de  cevada  substituíam  os  arrozais.  A  reunião  de    cinqüenta  cubatas  circulares,
      recobertas de colmo florido,  constituíam a capital de Karagwah.
      Ao meio-dia, o Vitória encontrava-se a um grau e quarenta e cinco minutos de latitude austral

      e, à uma hora, o  vento impelia-o para o lago.
      Este lago foi denominado Vitória pelo capitão Speke.  Naquele ponto, devia medir noventa
      milhas de largura. Na  sua extremidade meridional, o capitão encontrou um grupo de ilhas a
      que  chamou  o  arquipélago  de  Bengala.  Levou  o    seu  reconhecimento  até  Muanza,  na  costa
      leste, onde foi bem  recebido pelo sultão.
      O  Vitória  ia  abordando  o  lago  mais  ao  norte,  com  grande    pesar  do  doutor  que  desejaria

      determinar-lhe os contornos  inferiores. As margens, cobertas de vegetação espinhosa e de
        matagais  inextrincáveis,  desapareciam  literalmente  sob  miríades  de  mosquitos  de  cor
      castanho-clara.  Devia  ser  região  inabitável  e  desabitada.  Bandos  de  hipopótamos
      chafurdavam  entre as florestas de caniços ou mergulhavam nas águas claras  do lago. Este,
      visto de cima, oferecia, para oeste, horizonte  tão largo que se diria um mar. A distância entre
      ambas as  margens é tão grande, que não se podem estabelecer comunicações. Além disto, as
      tempestades são ali muito fortes e freqüentes, com ventos que se desencadeiam naquela bacia

      elevada e descoberta.
      O doutor teve dificuldade de orientação, temendo ser  arrastado para leste. Mas por sorte uma
      corrente levou-o para  o norte, e às seis horas da tarde o Vitória pairava sobre pequena ilha
      deserta, a mais de trinta quilômetros da costa. Os  viajantes lançaram âncora numa árvore e o
      vento acalmou-se  ao cair da noite. Puderam manter-se tranqüilos. Não  puderam, porém, nem
      pensar em descer à terra. Como nas  margens do lago Vitória, legiões de mosquitos cobriam o

      chão  com nuvem espessa. O próprio Joe regressou da árvore coberto de mordeduras, mas não
      se irritou, tão natural lhe parecia aquilo da parte dos mosquitos.
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