Page 68 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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O animal empreendeu galope bastante rápido, projetando  a tromba à direita e à esquerda e
      dando ao saltar violentas  sacudidelas na barquinha. O doutor, de machado em punho,  estava
      pronto a cortar a corda logo que fosse preciso.

      – Em todo caso, só nos separaremos da âncora no último  instante  disse ele.
      Aquela corrida atrás do elefante durou perto de hora e  meia. O animal não dava qualquer
      mostra de cansaço. Tais  enormes paquidermes podem correr distâncias consideráveis  e de
      um dia para outro são encontrados em pontos afastadíssimos, como as baleias que igualam em
      massa a rapidez.
      – De fato  observou Joe  é como se tivéssemos arpoado una baleia e o que fazemos é imitar a

      maneira dos  baleeiros na pesca.
      Súbita mudança, porém da natureza do terreno obrigou  o doutor a modificar o seu meio de
      locomoção. Densa floresta surgiu ao norte da planície, mais ou menos a quatro  quilômetros,
      tornando-se desde logo necessário que o balão  fosse separado do seu condutor. Kennedy foi
      encarregado de  fazer parar o elefante e levou a arma à cara, mas a posição  não era favorável
      para atingir o animal com êxito. A primeira bala, que lhe acertou o crânio, achatou-se como se
       batesse contra chapa de ferro e o bruto nem pareceu dar por  isso. Apenas acelerou mais o

      passo, ao ruído da descarga, passando a correr como cavalo a galope.
      – Diabo!  exclamou Kennedy.
      – Que cabeça dura!  acudiu Joe.
      – Vamos tentar algumas balas cônicas no ombro  tornou  Dick, carregando outra vez a carabina
      com método e disparando.

      O animal soltou rugido terrível, mas prosseguiu mais depressa ainda.
      O elefante soltou um rugido de aflição e agonia.
      – Tenho de ajudá-lo, senhor Dick  disse Joe apanhando uma das espingardas. Caso contrário
      nunca acabaremos.
      Duas  balas  foram  alojar-se  nos  flancos  do  animal.  O  elefante  estacou,  ergueu  a  tromba  e
      recomeçou  a  toda  a  pressa  a  sua  desfilada  para  o  bosque.  Sacudia  a  enorme  cabeça  e    o
      sangue começava a jorrar-lhe dos ferimentos.
      – Continuemos o nosso fogo, senhor Kennedy.

      –  E  fogo  nutrido    acrescentou  o  doutor.  Estamos  a  menos  de  quarenta  metros  da
      florestal Retumbaram mais dois tiros. O elefante deu salto medonho, a barquinha e o balão
      rangeram de tal modo que parecia irem despedaçar-se. O abalo fez cair o machado das  mãos
      do doutor e a situação complicou-se enormemente.  A corda da âncora, fortemente amarrada,
      não podia ser desprendida nem cortada pelas facas dos viajantes. O balão ia-se  aproximando

      vertiginosamente da floresta, quando o animal  recebeu uma bala no olho, no momento em que
      ergueu a  cabeça. Estacou, hesitou, dobraram-se-lhe os joelhos e por  fim apresentou o flanco
      ao caçador.
      – Uma bala no coração  disse este, descarregando pela  derradeira vez a carabina.
      O elefante soltou um rugido de aflição e agonia. Ainda  se ergueu um instante, fazendo girar a
      tromba,  mas  logo  tombou  com  todo  o  peso  sobre  um  dos  dentes,  que  se  quebrou.    Estava
      morto.

      –  Quebrou-se  o  dente!    bradou  Kennedy.  Marfim  que    na  Inglaterra  valeria  trinta  e  cinco
      guinéus por quarenta e  cinco quilos!
      – Tanto assim?  volveu Joe, deslizando até ao chão  pela corda da âncora.
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