Page 69 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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–  Não  adiantam  lamúrias,  meu  caro  Dick    tornou    o  doutor.  Nós  não  somos  traficantes  de
      marfim, nem viemos  aqui para fazer fortuna.
      Joe foi examinar a âncora. Estava solidamente presa ao dente intacto.

      Samuel e Dick pularam para terra, enquanto o aeróstato, meio flácido, oscilava sobre o corpo
      do paquiderme  Magnífico animal!  exclamou Kennedy. Que massa!  Nunca vi na índia elefante
      deste tamanho!
      – Isso não é de admirar. Os elefantes do centro da  África são os mais belos. Os Anderson e
      os Cumming caçaram tantos nos arredores do cabo que eles emigraram para o  equador, onde
      os encontraremos em bandos numerosos.

      –  Mas  enquanto  não  chega  a  oportunidade    atalhou    Joe    espero  que  possamos  provar  um
      pouco deste. Eu me  encarrego de preparar suculenta refeição à custa deste animal.  O senhor
      Kennedy vai caçar durante uma hora ou duas, o  doutor Samuel vai inspecionar o Vitória e,
      enquanto isso, eu  vou cuidar da cozinha.
      – Bem pensado  respondeu o doutor. Faça o que quiser.
      – Pois eu  disse o caçador  vou tomar as duas horas  de folga que Joe se dignou conceder-me.
      – Vá, mas nada de imprudências. Não se afaste muito.

      – Fique tranqüilo.
      E  Dick,  armado  com  seu  fuzil,  mergulhou  na  floresta.    Joe  assumiu  então  as  suas  funções.
      Primeiro, abriu no chão buraco da altura de setenta centímetros, cobrindo-o de  galhos secos
      que alastravam o local, provenientes das picadas  abertas na floresta pelos elefantes, cujas
      pegadas  se  viam  ainda.    Uma  vez  cheio  o  buraco,  amontoou-lhe  por  cima  outra  pilha    de

      cavacos da mesma altura e pôs-lhe fogo.
      Em seguida, voltou ao cadáver do elefante, caído apenas  a vinte metros do arvoredo. Cortou-
      lhe habilmente a tromba,  que media cerca de setenta centímetros de grossura e juntou-lhe uma
      das esponjosas patas do animal. São estes, com efeito,  os melhores bocados, como a corcova
      do bisonte, a pata do  urso e a cabeça do javali.
      Quando a lenha acabou inteiramente de arder, tanto no  interior como no exterior, o buraco,
      desobstruído  das  cinzas    e  carvões,  oferecia  temperatura  muito  elevada.  Os  pedaços    do
      elefante,  envolvidos  em  folhas  aromáticas,  foram  depositados  no  fundo  daquele  forno

      improvisado e recoberto de cinzas quentes. Depois, Joe ergueu sobre ele nova fogueira  e,
      uma vez consumida a lenha, a carne estava convenientemente assada.
      Joe  tirou  o  jantar  do  forno,  colocou  a  apetitosa  carne    em  novas  folhas  verdes  e  dispôs  o
      banquete no meio de um  relvado magnífico. Foi buscar biscoitos, aguardente e café e  trouxe
      água  fresca  e  límpida  de  regato  próximo. A  mesa  assim  disposta  dava  gosto  de  ver  e  Joe

      pensava, não com  excessiva vaidade, que talvez desse ainda mais gosto de comer.
      – Uma viagem sem canseiras e sem perigos!  pensava  ele. Comida à hora, liteira perpétua,
      que mais se pode desejar? E o senhor Kennedy que não queria vir!
      Por seu lado, o doutor Fergusson entregava-se a exame  meticuloso do aeróstato, que, aliás,
      não  parecia  ter  sofrido    com  o  incidente.  O  tafetá  e  a  guta-percha  tinham
      resistido maravilhosamente. Tomando a altura real do solo e calculando a força ascensional
      do balão, concluiu que o hidrogênio  se mantinha na mesma quantidade. O invólucro mostrara-

      se  até aí perfeitamente impermeável.
      Havia apenas cinco dias que os viajantes tinham deixado  Zanzibar. A carne ensacada não fora
      ainda  tocada  e  as  provisões  de  biscoitos  e  conservas  bastavam  para  longa  viagem.    Só  a
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