Page 64 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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– Não, amigos, guardem bem as provisões e deitem-se. Eu os acordarei se for preciso.
– Mas, meu amo, não seria melhor o senhor descansar agora, quando nada nos ameaça ainda?
– Obrigado, meu rapaz, prefiro ficar alerta. Estamos imóveis e, se as circunstâncias não
mudarem, amanhã estaremos exatamente no mesmo lugar.
– Então, boa noite.
– Boa noite, se for possível.
Kennedy e Joe estenderam-se debaixo das cobertas e o doutor ficou sozinho na imensidade.
Enquanto isto, o teto das nuvens baixava insensivelmente e a escuridão fazia-se profunda. A
negra abóbada ia-se arredondando em torno do globo terrestre como se o quisesse esmagar.
Bruscamente, forte relâmpago, rápido e nítido, rasgou a sombra. O rasgão não fora ainda
fechado quando medonho trovão abalou as profundezas do céu.
– Alerta! gritou Fergusson.
Os dois dorminhocos, acordados por aquele horrendo estrépito, puseram-se logo a postos.
– Vamos descer? perguntou Kennedy.
– Não! o balão não resistiria. Subamos antes que as nuvens se desfaçam em águas e o vento se
desencadeie!
E ativou logo a chama do maçarico entre as espirais da serpentina.
As tempestades dos trópicos desenvolvem-se com rapidez só comparável à sua violência. Um
segundo relâmpago fendeu a noite, seguido de vinte outros consecutivos. O céu estava
sulcado de faíscas elétricas que passavam entre as grossas gotas de chuva.
– Já nos atrasamos disse o doutor. Agora temos de atravessar uma zona de fogo com o nosso
balão cheio de ar inflamável.
– Então para a terra! Para a terra! insistia Kennedy. O risco de sermos fulminados é quase o
mesmo e não tardaríamos a ser despedaçados pelos ramos das árvores. Estamos subindo,
senhor Fergusson. Mais depressa! mais depressa!
Naquela parte da África, durante as tormentas equatoriais, não é raro contarem-se trinta a
quarenta raios por minuto. O céu fica literalmente em fogo e o estampido dos trovões não se
interrompe.
O vento desencadeia-se com pasmosa violência naquela atmosfera esbraseada, estorcendo as
nuvens incandescentes. Dir-se-ia que o sopro de imenso ventilador atiça aquele incêndio. O
doutor Fergusson mantinha o maçarico a todo calor, o balão dilatava-se e subia. De joelhos,
no centro da barquinha, Kennedy segurava os panos do toldo. O balão turbilhonava a ponto
de causar vertigens, os viajantes sofriam perigosas oscilações. Abriam-se grandes cavidades
no invólucro do aeróstato, que o vento comprimia com violência, e o tafetá drapejava
ruidosamente sob a pressão. Uma espécie de saraivada, precedida de ruído tumultuoso,
sulcava a atmosfera, crepitando sobre o Vitória. Este, entretanto, prosseguia na sua marcha
ascensional. Os raios figuravam tangentes inflamadas na sua circunferência. Estava-se em
pleno incêndio.
– Seja o que Deus quiser! disse Fergusson. Estamos em Suas mãos e só Ele nos pode salvar.
Preparemo-nos para tudo, mesmo para um incêndio. A nossa queda pode não ser rápida.
A voz do doutor mal chegava aos ouvidos dos companheiros, mas eles podiam ver-lhe a face
calma em meio ao fuzilar dos raios. O balão redemoinhava, turbilhonava, mas ia subindo
sempre. Ao fim de um quarto de hora tinha ultrapassado a zona das nuvens tormentosas. As
emanações elétricas desenvolviam-se abaixo dele como vasta coroa de fogo de artifício

