Page 67 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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prado que, de certa altura,  parecia coberto de capim rasteiro, mas, que, na realidade, tinha
       dois a dois metros e meio de espessura. O Vitória deslizou  pelo matagal, sem tocá-lo, como
      gigantesca  borboleta.  Não    havia  obstáculo  à  vista.  Era  como  um  oceano  de  verdura  sem

       escolhos.
      – Acho que vamos correr muito tempo assim  disse  Kennedy. Não avisto uma só árvore de
      que nos possamos  aproximar e a caçada parece comprometida.
      –  Esperemos,  caro  Dick.  Nem  poderia  caçar  neste  capinzal  mais  alto  do  que  você.
      Acabaremos por encontrar  lugar propício.
      Era  em  verdade  passeio  encantador,  verdadeira  viagem    marítima  sobre  aquele  oceano  de

      verdura, quase transparente,  com leves ondulações ao sopro do vento. A barquinha justificava
      perfeitamente o seu nome, parecendo fender as vagas,  apenas sucedendo que daquelas altas
      ervas surgia de vez em  quando uma revoada de pássaros de cores maravilhosas, por  entre
      alegres gorjeios. As âncoras mergulhavam naquele lago  florido, traçando um sulco que se
      fechava logo em seguida,  como a esteira de um navio.
      De repente, o balão sofreu forte arranco. A âncora mordera decerto alguma fenda de rocha
      oculta sob a relva gigantesca.

      – Firmou!  gritou Joe.
      – Então lança a escada!  replicou o caçador.
      Palavras não eram ditas quando um grito agudo varou  o ar e as seguintes frases cortadas de
      exclamações escaparam  da boca dos três viajantes.
      – Que será isso?

      – Um grito esquisito!
      – Olhe, continuamos andando!
      – A âncora soltou.
      -, Não, está ainda firmei  volveu Joe que segurava a  corda.
      –  Então  é  o  rochedo  que  caminhai  Produziu-se  nas  ervas  imenso  redemoinho  e,  em
      breve, forma alongada e sinuosa emergiu delas.   Uma serpente!  bradou Joe.
      –  Uma  serpente!    repetiu  Kennedy  armando  a  carabina.      Não!    interveio  o  doutor.  É  uma
      tromba de elefante.   Um elefante, Samuel!

      E assim falando, Kennedy levou a arma ao ombro.   Espere, Dick, espere!
      – Não há dúvida! É o animal que nos reboca.
      – E para o bom lado, Joe, para o bom lado!
      O elefante avançava com certa rapidez, não tardando a  alcançar clareira, onde foi possível
      vê-lo  todo.  Pelo  seu  tamanho  gigantesco,  o  doutor  reconheceu  macho  de  raça  magnífica.

      Tinhas duas presas esbranquiçadas, de admirável curvatura, com mais de dois metros e meio
      de comprimento. As  garras da âncora haviam-se prendido fortemente entre elas.
      O animal tentava em vão, com a tromba, libertar-se da  corda que o ligava à barquinha.
      – Avante, meu velho!  gritava Joe no auge da alegria,  excitando quanto podia aquele singular
      motor. É nova maneira de viajar, melhor ainda que o cavalo! Nada há como o elefante!
      – Mas para onde nos leva ele?  perguntou Kennedy,  agitando a carabina que lhe queimava as
      mãos.

      – Leva-nos aonde queremos ir, meu caro Dick. Tenha  paciência!
      – Wig a more! wig a more! como dizem os camponeses  da Escócia!  gritava o alegre Joe.
      Para frente! Para frente!
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