Page 63 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
P. 63
– Pretendes abandonar a direção que vimos seguindo desde a costa?
– Se isso me fosse possível respondeu Fergusson , viraria mais diretamente para o norte,
durante sete ou oito graus, para alcançar as latitudes presumíveis das nascentes do Nilo.
Talvez avistássemos alguns vestígios da expedição do capitão Speke. Se os meus cálculos
estão certos, encontramo-nos a trinta e dois graus e quarenta minutos de longitude, e eu
desejaria subir direto até além do equador.
– Olha! exclamou Kennedy interrompendo o companheiro. Olhe aqueles hipopótamos que
vêm saindo das lagoas! Que massas de carne sanguinolenta! E os crocodilos, como resfolgam
ruidosamente!
– Parecem abafados! interveio Joe. Ah! que maneira encantadora de viajar e como podemos
desdenhar essa bicharia maléfica! Senhor Samuel! Senhor Kennedy! Vejam aqueles bandos de
animais que marcham tão apertadamente! São pelo menos duzentos. Trata-se de lobos?– Não,
são cães selvagens, raça famosa que nem sequer teme os leões. É o encontro mais terrível que
pode ter um viajante. Num instante o despedaçam.
– Bem! Não serei eu que lhes irei pôr focinheira volveu o amável rapaz. Em todo o caso, se é
esse o natural deles, não lhes devemos querer mal.
O silêncio foi-se impondo pouco a pouco sob a influência da tempestade. O ar espesso ia-se
tornando impróprio para transmitir os sons. A atmosfera parecia acolchoada e, como sala
forrada de tapetes, perdia toda a sonoridade. As aves aquáticas, o grou coroado, os gaios
vermelhos e azuis, os tordos e as moscarelas escondiam-se nas grandes árvores. A natureza
inteira oferecia os sintomas de cataclismo próximo.
Às nove horas, o Vitória pairava imóvel sobre o Msené, vasta reunião de aldeias que mal se
divisavam na sombra. Por vezes o reflexo de um raio, perdido na água morna, indicava
fossas regularmente distribuídas e, em última claridade, o olhar distinguia a forma calma e
negra das palmeiras, sicômoros e eufórbios gigantescos.
– Sinto-me abafar! bradou o escocês, aspirando a longos sorvos aquele ar rarefeito. Estamos
parados. E se descêssemos?
– E a tempestade? volveu o doutor inquieto.
– Se receia ser levado pelo vento, não creio que tenha outro partido a tomar.
– Talvez a tempestade não caia esta noite... arriscou Joe. As nuvens estão muito altas.
– É justamente por isso que hesito em atravessá-las. Seria preciso subir a grande altura,
perder a terra de vista e ficar toda a noite sem saber se estamos avançando e para que lado
avançamos.
– Pois decida-se, caro Samuel, o tempo urge.
– É pena que o vento tenha caído tornou Joe. Ternos-ia levado para longe da tempestade.
– É realmente uma pena, meus amigos, porque as nuvens constituem perigo para nós. Elas
encerram correntes opostas que nos podem envolver em seus turbilhões e raios capazes de
incendiar-nos. Por outro lado, a força das rajadas pode atirar-nos ao chão se prendermos a
âncora à copa de uma árvore.
– Que faremos então?
– Conservar o Vitória em zona média entre os perigos da terra e do céu. Temos água em
quantidade suficiente para o maçarico, os nossos quilos de lastro estão intactos. Em caso de
necessidade eu os utilizarei.
– Então ficaremos vigiando juntos disse o caçador.

