Page 59 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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O doutor Fergusson, depois de ter lançado a vista sobre o conjunto, aproximou-se do leito de
madeira do soberano, onde jazia um homem de quarenta anos, completamente embrutecido
por toda a sorte de orgias e com o qual nada mais havia a fazer. A moléstia, que se
prolongava desde anos, não passava de perpétua bebedeira. O real borracho perdera quase o
conhecimento e nem todo o amoníaco do mundo bastaria para pô-lo de pé.
Os favoritos e as esposas, dobrando o joelho, curvavam-se durante a solene visita.
Empregando algumas gotas de violento cordial o doutor logrou reanimar por instante
aquele corpo embrutecido. O sultão esboçou um gesto. Para um cadáver que há muitas horas
não dava sinal de existência, o sintoma foi acolhido com enorme alvoroço e gritaria, em
honra do médico. Este, já farto daquilo, afastou com rápido movimento os adoradores
demasiado expansivos e retirou-se do palácio, encaminhando-se para o Vitória. Eram seis
horas da tarde.
Durante a ausência, Joe esperou tranqüilamente ao pé da escada, enquanto a multidão lhe
tributava os maiores respeitos. Na sua qualidade de verdadeiro Filho da Lua, ele deixava-se
homenagear. Para divindade, tinha o ar de excelente homem, nada altivo e até familiar com as
jovens africanas que não se cansavam de contemplá-lo. Aliás, ele dirigia-lhes palavras muito
lisonjeiras.
Levaram-lhe os dons propiciatórios, ordinariamente depostos nos mzimu ou cabanas sagradas.
Compunham-se de espigas de cevada e de pombé. Joe achou-se na obrigação de
experimentar aquela bebida forte semelhante à cerveja, mas o seu paladar, embora afeito ao
vinho e ao uísque, não pôde suportar-lhe a violência. Fez uma horrenda careta, que a
assistência tomou por gentil sorriso. Em seguida, as jovens, misturando as suas vozes em
lenta melopéia, executaram dança grave à sua volta.
– Ah! vocês dançam comentou ele. Pois não hei de ficar atrás e vou mostrar-lhes uma dança
da minha terra.
Encetou uma jinga atordoante, contorcendo-se, arqueando-se, dançando com os pés, com os
joelhos, com as mãos, esticando-se em contorções extravagantes, em atitudes inconcebíveis,
em carantonhas pavorosas, dando àquele povo curiosa idéia do modo como os deuses dançam
na Lua. Todos aqueles africanos, imitadores como macacos, começaram logo a reproduzir-lhe
as atitudes, as pernadas e os movimentos, e foi então um alarido, um tumulto e uma agitação de
que seria difícil dar idéia, mesmo fraca. No melhor da festa, Joe avistou o doutor que
regressava a toda pressa, entre a populaça ululante e desordenada. Os feiticeiros e os chefes
pareciam muito agitados. Cercavam o doutor, apertavam-no, ameaçavam-no.
Singular reviravolta! Que se teria passado? Acabara o sultão por sucumbir desastradamente
nas mãos do curandeiro celeste? Kennedy, do seu posto, viu o perigo sem lhe compreender a
causa. O balão fortemente solicitado pela dilatação do gás, retesava a corda que o prendia,
impaciente por erguer-se nos ares. O doutor chegou junto à escada. Um receio supersticioso
continha ainda a multidão, impedindo-a de exercer violência contra a sua pessoa. Subiu
rapidamente os degraus e Joe seguiu-o com idêntica agilidade.
– Não temos um instante a perder disse-lhe o amo. Nada de soltar a âncora! É preferível
cortar a corda. Vamos!
– Mas que sucedeu?
– Que sucedeu? repetiu Kennedy empunhando a carabina.
– Olhem! respondeu o doutor apontando para o horizonte.

