Page 58 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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posto que lhe designei.
– Visto que assim o quer... concordou o caçador.
– Cuide da dilatação do gás.
– Não se preocupe.
A gritaria dos indígenas aumentava. Parecia que reclamavam energicamente a intervenção
celeste.
– Olhe! Olhe! exclamou Joe. Acho-os um pouco exigentes com a sua boa Lua e os seus
divinos filhos.
O doutor, munido de sua farmácia de viagem, desceu à terra precedido de Joe. Este, grave e
digno como convinha, sentou-se ao pé da escada de pernas cruzadas à moda árabe e parte da
multidão envolveu-o em círculo respeitoso. Enquanto isto, o doutor Fergusson, conduzido ao
som de instrumentos, escoltado por danças religiosas, avançou lentamente para o Tembé real,
situado bastante fora da cidade. Eram mais ou menos três horas e o sol resplandecia.
O doutor caminhava com dignidade. Os waganga cercavam-no, contendo a multidão. Em
breve, veio ao encontro de Fergusson o filho natural do sultão, moço airoso e que de acordo
com os hábitos do país era o único herdeiro dos bens paternos, com exclusão dos filhos
legítimos. Prostrou-se diante do Filho da Lua, que o fez erguer-se com um gesto magnânimo.
Três quartos de hora depois, por caminhos cheios de sombra e em meio a luxuriante
vegetação tropical, a procissão entusiasmada chegou ao palácio do sultão, espécie de edifício
quadrado, situado na vertente de uma colina. Cercava-o pelo exterior alpendre com teto de
colmo à maneira de varanda, apoiado em colunas de madeira que tinham a pretensão de ser
esculpidas. Longas listras de argila avermelhada adornavam as paredes, tentando reproduzir
figuras de homens e de serpentes, estas naturalmente com mais êxito que aquelas. O teto da
habitação não se apoiava diretamente sobre as paredes, permitindo que o ar circulasse com
liberdade. Além disso, nenhuma janela e apenas uma porta.
O doutor Fergusson foi recebido com grandes honras pelos guardas e favoritos, homens de
boa raça, fortes e robustos, ... Um dos feiticeiros fez um gesto e todo o clamor se mudou em
profundo silêncio.
Bem feitos e saudáveis. Os cabelos, divididos em grande número de pequenas tranças, caíam-
lhes pelos ombros. Por meio de incisões pretas ou azuis, listravam as faces desde as
têmporas até à boca. As orelhas, horrendamente distendidas, sustentavam discos de madeira
e placas de goma copal. Vestiam-se de panos fortemente coloridos. Os soldados, armados de
zagaia, de arco e flechas farpadas e envenenadas com o suco do eufórbio, exibiam ainda
longos sabres com dentes de serra, facalhões e pequenas achas de armas.
O doutor penetrou no palácio e, apesar da doença do sultão, o alarido, já terrível, redobrou à
sua chegada. No lintel da porta, pôde notar caudas de lebres e crineiras de zebra suspensas à
maneira de talismã. Foi recebido pelo bando de esposas de Sua Majestade, aos acordes
harmoniosos do upatu, espécie de pratos feitos com fundos de caçarolas de cobre, e ao
estrondo do kilindo, tambor de metro e meio de altura, cavado em tronco de árvore. Quase
todas as mulheres pareciam lindas e fumavam, rindo, tabaco em grandes cachimbos negros.
Mostravam-se bem nos seus trajes graciosos o usavam fibras de cabaceira atadas em redor da
cintura. Seis dentre elas não eram as menos alegres do bando, embora um pouco à parte e
destinadas a cruel suplício. Por morte do sultão deveriam ser enterradas vivas, juntamente
com ele, a fim de o distraírem durante a eterna solidão.

