Page 57 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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– Se for viável, por que não? respondeu o doutor. Deve haver em Kazeh mercadores árabes
mais instruídos, menos selvagens. Lembro-me de que Burton e Speke só tiveram louvores
quanto á hospitalidade que lhes foi dispensada pelos habitantes. Podemos tentar a aventura.
O Vitória, que insensivelmente se aproximara da terra, prendeu uma das âncoras no cimo de
uma árvore junto à piaça do mercado. Toda a população espreitou naquele momento para fora
dos seus buracos. As cabeças surgiam timidamente. Alguns waganga, reconhecíveis pelas
insígnias de conchas cônicas, avançaram com destemor. Eram os feiticeiros do lugar.
Pouco a pouco, a multidão veio juntar-se a eles, as mulheres e as crianças cercaram-nos, os
tambores romperam em vivo rufo, as mãos batiam, estendendo-se para o céu.
– E o seu modo de rezar explicou o doutor Fergusson. Se não me engano vamos ser chamados
a desempenhar papel importante.
– Pois então, meu amo, desempenhe-o!
No mesmo instante, um dos feiticeiros fez um gesto e todo o clamor se mudou em profundo
silêncio. Ele dirigiu algumas palavras aos viajantes, mas em língua inteiramente
desconhecida. O doutor Fergusson, que nada entendera, lançou ao acaso algumas palavras em
árabe e imediatamente lhe responderam na mesma língua. O orador entregou-se a torrencial
arenga, muito florida. Por ela soube o doutor que o Vitória estava sendo muito simplesmente
tomado pela própria Lua e que essa amável deusa se dignara descer na cidade com seus três
filhos, honra que jamais seria esquecida naquela terra amada do sol. O doutor respondeu com
imensa dignidade que a Lua fazia em cada mil anos o seu giro departamental, consentindo em
mostrar-se mais de perto aos seus adoradores. Pediu-lhes que se não constrangessem nem
receassem abusar da sua divina presença, dando-lhe a conhecer suas necessidades e desejos.
o feiticeiro respondeu por sua vez que o sultão, doente havia muitos anos, reclamava os
socorros do céu e convidava os Filhos da Lua a visitá-lo. O doutor transmitiu o convite aos
companheiros.
– Vai à presença desse rei negro? perguntou-lhe o caçador.
– Sem a menor dúvida. Esta gente parece-me bem disposta, a atmosfera está calma, não há um
sopro de vento. Nada temos a recear pelo Vitória.
– Mas, enfim, que vai fazer?
– Sossega, caro Dick; com habilidade hei de sair-me bem. acrescentou, dirigindo-se à
multidão:
– A Lua, apiedando-se do soberano amado dos filhos de Unyamwezy, confiou-nos o encargo
da sua cura. Ele que se prepare para receber-nos.
Os clamores, os cantos e as demonstrações redobraram, todo o vasto formigueiro de cabeças
negras se pôs em movimento.
– Agora, amigos disse o doutor Fergusson , precisamos agir com previdência, pois de um
momento para outro poderemos ser forçados a reembarcar à pressa. Dick fica na barquinha e
por meio do maçarico manterá força ascensional suficiente. A âncora está bem presa e por
esse lado nada temos a recear. Eu vou descer à terra, Joe irá comigo, mas ficará junto da
escada.
– O quê! Pretende ir sozinho ver o sultão? berrou Kennedy.
– Como, doutor Samuel! Não quer que o acompanhe até lá? acrescentou Joe espantado.
– Não, irei sozinho. Essa gente está convencida de que a sua grande deusa, a Lua, veio em
visita. Estou protegido pela superstição, de modo que não tenham medo e fique cada qual no

