Page 56 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
P. 56

BEBEDEIRA REAL KAZEH





      Ponto  importante  da  áfrica  central,  não  é  propriamente  uma  cidade.  A  bem  dizer,  não  há
      realmente    cidades  no  interior  da  África.  Kazeh  não  passa  do  conjunto    de  seis  vastas
      escavações. Ali se acham encerradas as casas  e as choças dos escravos, com pequenos pátios
      e  pequenas    hortas  cuidadosamente  tratadas.  Cebolas,  batatas,  berinjelas,  abóboras  e
      saborosos  cogumelos  medram  com  toda  a  facilidade.  O  Unyamwezy  é  a  terra  da  Lua  por

      excelência,  o  parque  fértil  e  esplêndido  da  África.  No  centro  acha-se  o  distrito    de
      Unyanembé, região deliciosa onde vivem indolentemente algumas famílias de Omanis, árabes
      de origem pura.
      Longo tempo andaram comerciando pelo interior da África  e na Arábia. Negociavam com
      gomas, marfim, chitas e escravos. Suas caravanas sulcavam essas terras equatoriais. Ainda
      vão  buscar no litoral objetos de luxo e de prazer para os negociantes enriquecidos, os quais,

      entre  mulheres  e  escravos,  levam  nesse  país  encantador  a  existência  menos  agitada  e  mais
      horizontal,  sempre  deitados,  rindo,  fumando  ou  dormindo.    Kazeh  está  em  torno  dessas
      escavações com numerosas casas  de indígenas, vastos locais para os mercados, campos de
      canabíneos e de datura, belas árvores e sombras aprazíveis.
      Ali se encontram todas as caravanas. As do sul, com seus  escravos e seus carregamentos de
      marfim,  e  as  do  oeste  que  exportam  o  algodão  e  as  miçangas  para  as  tribos  dos  Grandes
       Lagos. Nos mercados reina agitação perpétua, burburinho indefinível, composto dos brados

      dos carregadores mestiços, do  som de tambores e cornetas, do relinchar das mulas, do zurrar
       dos jumentos, dos cantos das mulheres, do choro das crianças o dos golpes de cajado do
      chefe da caravana que bate o compasso daquela sinfonia pastoral. Ali se exibem sem ordem,
       ou antes em desordem encantadora, os vistosos estofos, as miçangas, os marfins,– os dentes
      de rinoceronte, os de tubarão, o mel, o tabaco e o algodão. Ali se realizam os negócios mais
      estranhos, onde os objetos só têm valor pelos desejos que  inspiram.

      De repente, toda aquela agitação, todo aquele movimento,  todo aquele ruído cessou. O Vitória
      acabava de surgir nos  ares, planava majestosamente e vinha descendo pouco a pouco,  sem se
      afastar da vertical. Homens, mulheres crianças, escravos, mercadores, árabes e negros, tudo
      desapareceu e se  refugiou nos tembés e nas choças.
      – Meu caro Samuel  disse Kennedy , se continuarmos  a produzir impressões semelhantes,
      teremos dificuldade em  estabelecer relações comerciais com essa gente.
      –  Contudo    observou    teríamos  operação  comercial    de  grande  simplicidade  a  fazer:  era

      desembarcar tranqüilamente e carregar as mercadorias mais valiosas, sem nos importarmos
      com os mercadores. Ficaríamos ricos.
      – Oh!  replicou o doutor  esses indígenas têm medo  no primeiro momento, mas não tardarão a
      voltar, por superstição ou curiosidade.
      – Acha, meu amo?
      – Veremos. Em todo caso, convém não nos aproximarmos muito. O Vitória não é um balão

      blindado nem couraçado, nem está livre de bala ou de flecha.
      – Tenciona, caro Samuel, entrar em conversações com  esses africanos?  disse Dick.
   51   52   53   54   55   56   57   58   59   60   61