Page 54 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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toda recortada por rochas com a  forma de dorso de jumento. Massas cônicas, semelhantes
      aos rochedos de Carnaque, guarneciam o solo como os dólmãs dos  druidas. Inúmeras ossadas
      de búfalos e elefantes resplandeciam aqui e ali. As árvores eram escassas, a não ser para

       leste, onde se viam espessos bosques que envolviam algumas aldeias.
      Pelas sete horas, uma rocha redonda, de perto de três  quilômetros de extensão, surgiu qual
      imensa carcaça de tartaruga.
      – Estamos em boa trilha  disse Fergusson. Ali está  Jihue-la-Mkoa, onde vamos parar por
      algum tempo. Preciso  renovar a provisão de água que alimenta meu maçarico. Tratemos de
      enganchar em algum lugar.

      – Há poucas árvores  ponderou o caçador.
      – Vamos tentar assim mesmo. Joe, atire as âncoras.
      O balão, perdendo gradualmente sua força ascensional,  aproximou-se da terra. O gancho de
      uma das âncoras agarrou-se a uma fenda de rocha e o Vitória imobilizou-se.
      Como  é  natural,  o  doutor  não  apagava  inteiramente  o    maçarico  durante  suas  paradas.  O
      equilíbrio  do  balão  fora    calculado  com  relação  ao  nível  do  mar.  Ora,  o  terreno  era    em
      declive  e,  achando-se  a  duzentos  metros  de  elevação,  o    balão  tenderia  a  descer. Assim,

      tornava-se necessário sustentá-lo por meio de certa dilatação do gás. Somente no caso  de
      completa ausência de vento, poderia o doutor deixar a  barquinha pousar inteiramente na terra,
      quando o aeróstato,  deslastrado de peso considerável, conseguiria manter-se sem o  auxílio
      do maçarico.
      Os  mapas  indicavam  imensos  poços  sobre  a  vertente  ocidental  de  Jihue-la-Mkoa.  Para  lá

      dirigiu-se  Joe,  carregando    barril  com  capacidade  para  cinqüenta  litros.  Encontrou  sem
       dificuldade o local indicado, a pequena distancia de aldeola desabitada. Fez sua provisão de
      água,  retornando  em  menos    de  três  quartos  de  hora.  Nada  vira  de  extraordinário,  salvo
       imensas armadilhas para elefantes. Chegou mesmo a cair no  interior de uma delas, enquanto
      examinava a carcaça semicarcomida que lá havia.
      Trouxe da excursão uma espécie de nêspera, que os macacos comiam com avidez. O doutor
      reconheceu o fruto do  mbenbu, árvore muito abundante naquela região. Fergusson  aguardava
      Joe  com  certa  impaciência,  pois  uma  parada  ainda    que  rápida  naquele  território  inóspito

      inspirava-lhe temor.
      Embarcaram a água sem dificuldade, pois a barquinha quase  tocava o solo. Joe desprendeu a
      âncora e pulou agilmente  para o lado do patrão. Este reavivou a chama e o Vitória retomou
      sua rota aérea.
      Encontravam-se agora a cento e cinqüenta quilômetros  de Kazeh, importante instituição do

      interior da África, onde,  graças a uma corrente do sudeste, os viajantes esperavam  chegar em
      breve, pois seguiam com velocidade de trinta quilômetros horários. A direção do aeróstato
      tornava-se  bastante    difícil.  Não  era  possível  ganharem  muita  altura  sem  dilatar    grande
      quantidade de gás, pois a região já se achava a uma  altitude média de quatro mil e trezentos
      metros. Ora, tanto  quanto possível, o doutor preferia não forçar a dilatação.  Assim seguiu
      prudentemente  as  sinuosidades  de  uma  encosta    bastante  íngreme  e  voou  baixo  sobre  as
      aldeias de Tembo e  Tura-Wels. A última fazia parte de Unyamwezy, fantástica  região onde

      as árvores atingem dimensões enormes.
      Por volta das duas horas, com tempo magnífico, apesar  do sol abrasador que devorava a mais
      leve corrente de ar, o  Vitória sobrevoou a cidade de Kazeh, situada a quinhentos e cinqüenta
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