Page 53 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
P. 53

leste sob o impulso de vento moderado.
      – Quase houve um assalto!  comentou Joe.
      – Pensamos que estivesse sendo atacado pelos indígenas.

      – Felizmente não passavam de macacos!  respondeu o  doutor.
      – De longe, a diferença não é grande, meu caro Samuel.
      – Assim mesmo, podia ter sido perigoso  declarou Fergusson. Se a âncora se tivesse soltado
      com as sacudidelas que  eles davam, sabe-se lá para onde o vento me teria levado!
      – Não disse, senhor Kennedy?
      – Você tinha razão, Joe. E naquele momento você preparava bifes de antílope que me estavam

      deixando com água  na boca.
      – É muito natural  disse o doutor. A carne de antílope  é deliciosa.
      – Já vai poder experimentá-la, senhor. A mesa está servida.
      – Então, vamos a ela  disse o caçador , só o cheiro  já abre o apetite de qualquer pessoa.
      – Puxa! Se eu pudesse, só comeria carne de antílope o  resto da vida  exclamou Joe, com a
      boca cheia. De preferência com um copo de grogue para facilitar a digestão.
      Passando da palavra à ação, apressou-se a preparar a  bebida, que foi provada com tranqüilo

      prazer.
      – Até agora, tudo correu muito bem  observou o bom  rapaz.
      – otimamente  concordou Kennedy.
      – Então, senhor Dick? Está arrependido de ter vindo  conosco?
      – Queria ver alguém tentar impedir-me de vir!– respondeu o caçador com ar resoluto.

      Eram  quatro  horas  da  tarde  e  o  Vitória  encontrou  corrente  mais  rápida.  O  sol  elevava-se
      insensivelmente e a coluna barométrica indicou a altura de quinhentos metros acima  do nível
      do mar. O doutor viu-se forçado a sustentar seu  aeróstato por acentuada dilatação de gás e o
      maçarico funcionava sem cessar. Por volta das sete horas, o Vitória pairava sobre a bacia do
      Caniemé. O doutor logo reconheceu  aquela vasta extensão de terreno desbravado, com suas
      aldeias  perdidas entre baobás e cabaceiros. Lá ficava a residência de  um dos sultões da
      região de Ugogo.
      Depois  de  Caniemé,  o  terreno  tornou-se  árido  e  pedregoso.  Mas  ao  cabo  de  uma  hora  de

      viagem, a vegetação ressurgiu em toda a sua plenitude. O vento descambava com o  dia e a
      atmosfera  parecia  prestes  a  adormecer.  O  doutor  fez    baldadas  tentativas  para  encontrar
      corrente em diferentes altitudes. Em vista da placidez da natureza, decidiu passar a  noite nos
      ares e por medida de segurança elevou-se a perto  de trezentos metros. O Vitória mantinha-se
      imóvel e a noite  magnificamente estrelada mergulhou em silêncio absoluto.

      Dick e Joe deitaram-se e dormiram profundamente.  A meia-noite foi o doutor substituído na
      guarda pelo escocês.
      –  Se  perceber  o  mínimo  incidente,  acorde-me  logo    ordenou.  E  não  perca  o  barômetro  de
      vista, que ele é a nossa  bússola! A noite foi fria. Com as trevas havia-se desencadeado o
       concerto noturno dos animais, que a sede e a fome obrigam  a abandonar suas tocas. As rãs
      vocalizavam sua voz de soprano, em coro com os uivos dos chacais, enquanto o tom  baixo
      imponente dos leões sustentava os acordes daquela orquestra animada.

      Ao retomar seu posto de manhã, Fergusson consultou a  bússola, verificando que o vento se
      alterara  durante  a  noite.    O  Vitória  desviara-se  quarenta  quilômetros  para  o  noroeste,
       passando agora sobre Mabunguru, região pétrea, salpicada de  bloco de sienita reluzente e
   48   49   50   51   52   53   54   55   56   57   58