Page 48 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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– Pelo menos nos levará para lá  observou Joe com  seriedade.
      Constituíam espetáculo curioso aquelas massas de nuvens  aglomeradas abaixo da barquinha.
      Deslizavam umas sobre as outras, confundindo-se em magnífico brilho ao refletirem os  raios

      de sol. O Vitória atingiu altura de mil e trezentos metros  e o termômetro indicava certa queda
      de temperatura. Não  se distinguia mais a terra. A oitenta quilômetros para o oeste,  o monte
      Rubeo  erguia  seu  cume  resplandecente.  Constituía  o    limite  da  região  de  Ugogo.  O  vento
      soprava com velocidade  Não vá voar e nos deixar aqui, patrão  exclamou Joe.
      de trinta quilômetros horários, mas o viajantes nada sentiam,  tal a estabilidade do balão.
      Três  horas  mais  tarde,  realizava-se  o  prognóstico  do    doutor.  Haviam  desaparecido  os

      arrepios de febre de Kennedy  e ele almoçou com apetite.
      – Isso desmoraliza o sulfato de quinina_  declarou com  satisfação.
      – Não resta dúvida  disse Joe , é aqui que virei  passar minha velhice.
      Por volta das duas horas da manhã, a atmosfera aclarou-se. As nuvens dispersaram-se e a terra
      reapareceu. O  Vitória insensivelmente foi-se aproximando dela. O doutor  Fergusson buscava
      corrente que o conduzisse mais para o nordeste, encontrando-a a duzentos metros do solo. A
      região  tornara-se acidentada, montanhosa. O distrito de Zungomero  desaparecia a leste com

      os últimos coqueiros daquela latitude.
      Cimos de montanhas tomaram saliências mais pronunciadas. Aqui e ali elevavam-se alguns
      picos. A  atenção  tinha  de    ser  constante,  pois  aqueles  cones  pontiagudos  pareciam  surgir
       inopinadamente.
      – Estamos entre recifes  observou Kennedy.

      – Não se preocupe, que não vamos bater neles.
      – Seja como for, que bela maneira de viajar  replicou  Joe.
      Em verdade, o doutor manobrava seu balão com rara  destreza.
      – Se tivéssemos de caminhar por terra neste terreno acidentado, estaríamos perdidos. Desde
      nossa  partida  de  Zanzibar,  todos  os  nossos  animais  já  teriam  morrido  de  cansaço.    Nós
      estaríamos como espectros e completamente desesperados.  Seria constante luta com os guias
      e os carregadores, sempre  sujeitos á sua conhecida brutalidade. Durante o dia, calor  úmido,
      opressivo,  insuportável. A  noite,  frio  muitas  vezes  intolerável  e  picadas  de  certas  moscas

      cujas mandíbulas atravessam o tecido mais espesso, o que torna a vítima louca.  E tudo isso
      sem falar nas feras e nas tribos ferozes.
      – Nem quero imaginar  disse simplesmente Joe.
      –  Não  estou  exagerando    prosseguiu  Fergusson.  Vocês    seriam  capazes  de  chorar  lendo  o
      relato de viajantes que tiveram a audácia de aventurar-se por estas regiões.

      Lá pelas onze horas, passaram pela bacia de Imengé. As  tribos esparsas que habitavam as
      colinas  vizinhas  ameaçavam    em  vão  o  Vitória  com  suas  armas.  Finalmente  chegaram  às
       últimas ondulações de terreno que precediam o Rubeo. Formam a terceira cadeia e a mais
      elevada das montanhas do  Usogara.
      Os viajantes tinham perfeito conhecimento da conformação orográfica da região. Estas três
      ramificações,  das  quais  o    Dutumi  constitui  o  primeiro  escalão,  são  separadas  por  vastas
       planícies longitudinais. Os pontos mais elevados compõem-se  de picos arredondados, entre

      os quais o solo é revestido de  blocos irregulares e de seixos. O declive mais abrupto das
        montanhas  está  voltado  para  a  costa  Zanzibar.  As  encostas    ocidentais  são  planícies
      inclinadas. As depressões de terreno  são cobertas de terra negra e fértil, onde a vegetação é
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