Page 43 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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O INFELIZ MAIZAN





      Atmosfera estava límpida e o vento era leve.
      O Vitória subiu quase perpendicularmente a uma altura de  quinhentos metros, que foi indicada
      por depressão de perto  de cinco centímetros na coluna barométrica.
      Naquela  elevação,  corrente  mais  acentuada  carregou  o    balão  para  o  sudoeste.  Espetáculo
      maravilhoso  desenrolava-se    ante  os  olhos  dos  viajantes!  A  ilha  de  Zanzibar  surgia

      inteiramente à vista, destacando-se por seu colorido mais escuro,  como se fosse apresentada
      num planisfério. Os campos tomavam aparência de pedacinhos de amostras de várias cores,  o
      grande ramalhetes de árvores indicavam os bosques e as  matas. Os habitantes da ilha surgiam
      como  insetos.  Os  brados  o  os  gritos  extinguiam-se  pouco  a  pouco  e  os  tiros  de  canhão
       vibravam na concavidade inferior do aeróstato.
      – Como tudo isto é lindo!  exclamou Joe, rompendo  pela primeira vez o silêncio.

      Os  outros  não  responderam.  O  doutor  achava-se  atarefado  em  observar  as  variações
      barométricas,  anotando  os  diversos  pormenores  da  ascensão,  enquanto  Kennedy  tudo
      observava, por demais emocionado para poder falar.
      Os  raios  de  sol  vinham  em  auxilio  do  maçarico,  aumentando  a  pressão  do  gás.  O  Vitória
      atingiu altura de novecentos  metros.
      O  Resoluto  parecia  agora  simples  barquinho  e  a  costa    africana  delineava-se  a  oeste  por
      imensa orla de espuma.

      – Perderam a voz?  perguntou Joe.
      – Estamos observando  respondeu o doutor, dirigindo sua luneta para o continente.
      – Eu não posso ficar sem falar.
      – Fale à vontade, fale quanto quiser.
      O Joe entrou em ação, entregando-se a considerável  abuso de onomatopéias. Os oh!, ah!, ih!,
      uh! escapavam-se-lhe  dos lábios sem cessar.

      Durante a travessia do mar, o doutor julgou conveniente  manter-se naquela elevação. Podia,
      assim, observar extensão  maior da costa. O termômetro e o barômetro, suspensos no  interior
      do toldo entreaberto, encontravam-se ao alcance da  sua vista, enquanto segundo barômetro,
      colocado na parte externa, devia servir durante os quartos noturnos.
      Ao  cabo  de  duas  horas,  o  Vitória,  impelido  com  a  velocidade  de  pouco  mais  de  catorze
      quilômetros, ganhou a costa.  O doutor resolveu aproximar-se de terra. Moderou a chama  do
      maçarico e logo o balão desceu a cem metros do solo.  Achava-se sobre Mrima, denominação

      dada a esta parte da  costa oriental da África. Densas orlas de risóforos protegiam  as margens
      e  a  maré  baixa  deixava  visíveis  suas  espessas  raízes    carcomidas  pelo  dente  do  oceano
      Índico. As dunas que formavam outrora a linha costeira arredondavam-se no horizonte  e o
      monte Nguru levantava seu pico para noroeste.
      O Vitória passou por uma aldeia que, examinando no  mapa, o doutor verificou tratar-se de
      Caole. Toda a população emitia urros de cólera e temor. Passaram a arremessar  em vão suas

      flechas contra aquele monstro dos ares, que deslizava majestosamente a salvo de toda aquela
      manifestação  de furor.
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