Page 47 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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A DOIS MIL METROS
Noite transcorreu calma. Todavia, ao acordar, sábado pela manhã, Kennedy queixou-se de
cansaço e arrepios de febre. O tempo mudava. O céu cobrira-se de nuvens espessas,
parecendo abastecer-se para desencadear novo dilúvio. Um melancólico lugar aquele
Zungomero, onde chove continuamente, salvo talvez durante quinze dias do mês de janeiro.
Chuva violenta não tardou a desabar. Lá embaixo, os caminhos cortados por nullahs, espécie
de torrentes momentâneas, tornavam-se impraticáveis atravancados ainda por moitas
espinhosas e cipós gigantescos. Percebiam-se distintamente as emanações de hidrogênio
sulfuroso a que se referira o capitão Burton.
– Segundo ele disse o doutor , e tinha toda a razão, parece que atrás de cada espinheiro está
escondido um cadáver.
– Que lugar horrível! exclamou Joe. E o senhor Kennedy não se está sentindo bem por ter
passado a noite aqui.
– É verdade, estou com febre bem forte.
– Não é de admirar-se, meu caro Dick. Estamos numa das regiões mais insalubres da África.
Mas já vamos sair daqui.
Graças á habilidade de Joe, a ancora foi rapidamente desengatada. Por intermédio da escada,
subiu à barquinha. O doutor avivou o gás e o Vitória retomou seu vôo, impelido por vento
bastante forte.
De quando em quando, viam-se pequenas cabanas por entre o nevoeiro pestilento. Logo
depois alterava-se o aspecto da região. É freqüente na África que área doentia e de reduzida
extensão se confine com outras perfeitamente salubres.
Era visível o precário estado de saúde de Kennedy. A febre abatera sua natureza vigorosa.
– Não era caso para ficar doente disse ele, enrolando-se na coberta e deitando-se debaixo do
toldo.
– Um pouco de paciência, meu caro respondeu Fergusson. Logo você estará bom.
– Samuel, se você tiver na sua farmácia de viagem alguma droga que me ponha de pé, pode
aplicá-la em mim, que suportarei com olhos fechados.
– Tenho algo melhor que isso. Vou acabar com essa febre e você nem vai sentir.
– Como?
– É muito simples. Vou subir acima das nuvens que nos estão molhando e distanciar-me deste
ar pestilento. Só peço dez minutos para dilatar o hidrogênio.
Os dez minutos nem haviam ainda sido completados e eles já se encontravam além da zona
úmida.
– Espere mais um pouco e sentirá a influência do ar puro e do sol.
– Que remédio fantástico! exclamou Joe Nada tem de fantástico. É até bem natural. Bem,
que é natural, é.
– Mando-o tomar ares melhores, como se faz tão comumente na Europa.
– Neste balão, parece que a gente está no paraíso! exclamou Kennedy, já um pouco mais a
vontade.

