Page 45 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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atingisse, o doutor teve de elevar o balão acima das emanações daquelas terras úmidas,
absorvidas por sol ardente.
Algumas vezes, podiam divisar uma caravana descansando num kraal à espera da brisa
noturna para reencetar sua viagem. São logradouros rodeados de sebe e matas, onde os
mercadores se abrigam não somente das feras como também das tribos saqueadoras daquelas
paragens. Viam-se os nativos em disparada, dispersando-se ao depararem com o Vitória.
Kennedy desejava examiná-los mais de perto, mas Samuel opôs-se a tal intento.
– Os chefes estão armados de mosquetes explicou e nosso balão seria ponto de mira certo
para uma bala.
– Será que um furo de bala ocasionaria a queda do balão? inquiriu Joe.
– Imediatamente, não. Mas logo o buraco se transformaria em vasto rasgão e nosso gás
escaparia todo por ele.
– Nesse caso, o melhor é nos mantermos a boa distância daqueles infiéis. O que será que eles
pensam vendo-nos assim voando? Talvez tenham vontade de adorar-nos.
– Sim, eles podem adorar-nos se quiserem ponderou o doutor , mas só de longe, que é mais
seguro. Vejam, a região já começa a mudar de aspecto. As aldeias rareando, as mangueiras e
toda a vegetação já desapareceram. O solo torna-se mais acidentado e tudo indica que teremos
montanhas pela frente.
– Tem razão concordou Kennedy. Parece que já estou vendo elevações deste lado.
– No oeste... Devem ser as primeiras montanhas de Urizara, na certa o monte Dutumi, atrás do
qual espero descer para passarmos a noite. Vou avivar a chama do maçarico. Somos
obrigados a manter altura de duzentos metros.
– Não resta dúvida que sua idéia foi fantástica, meu senhor, comentou Joe. Que facilidade! É
só virar uma torneira e pronto.
Assim que o balão ganhou mais elevação, disse o caçador:
e Fergusson conservava-se prudentemente fora elo alcance das flechas.
– Aqui estamos bem melhor. O reflexo do sol naquela areia vermelha já se estava tornando
insuportável!
– Vejam que árvores formidáveis! exclamou Joe. Só com uma dúzia delas se faria uma
florestal São baobás elucidou o doutor Fergusson. Olhem aquele ali. Deve ter no mínimo
trinta metros de circunferência. Pode ter sido perto dele que morreu o francês Maizan, em
1845, pois estamos sobrevoando a aldeia de Deje-la-Mhora, onde ele se aventurou sozinho.
Foi agarrado pelo chefe da povoação, amarrado ao tronco de uma árvore e o negro feroz lhe
cortou aos poucos as articulações enquanto retumbavam os cânticos de guerra. Depois,
dilacerou-lhe a garganta, parou para afiar seu facão embotado, e acabou arrancando a cabeça
do infeliz com as mãos. O pobre francês só tinha vinte e seis anos!
– Por favor, não pare por aqui, patrão pediu Joe. Subamos, subamos.
– Pois não, meu caro, ainda mais que temos à nossa frente o monte Dutumi. Se meus cálculos
não falham, nós o passaremos antes das sete horas da noite.
– Não vamos viajar a noite? perguntou o caçador.
– Não, sempre que for possível evitar. Com cuidado e vigilância, poderíamos fazê-lo sem o
menor perigo, mas acontece que não basta atravessar a África, é preciso também vê-la.
– Até agora não podemos queixar-nos patrão. A região mais cultivada e mais fértil do mundo
em lugar de um deserto. Vá a gente acreditar nesses geógrafos!

