Page 44 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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O  vento  impelia  para  o  sul,  o  que  não  chegou  a  inquietar  o  doutor.  Pelo  contrário,  aquela
      direção permitia-lhe seguir  a rota traçada pelos capitães Burton e Speke. Kennedy acabou
       por tornar-se tão loquaz quanto Joe, passando ambos a trocar  frases de admiração.

      – Abaixo as diligências!  dizia um.   Abaixo os navios!  dizia outro.
      – Abaixo os trens!  retornava Kennedy. Neles a gente  atravessa um país sem ver nada!
      – Para mim agora é só balão  exclamava Joe. Nem  se sente a viagem e toda a natureza vai-se
      desenrolando aos  nossos olhos!
      – Que espetáculo! Parece sonho de tão maravilhoso!
      – É, mas... que tal se almoçássemos?  indagou Joe,  a quem as alturas abriam o apetite.

      – E uma idéia, rapaz.
      –  Muito  bem.  A  refeição  não  demorará  a  ser  preparada.    Teremos  biscoito  e  carne  em
      conserva.
      – E café à vontade  aparteou o doutor. Permito que  se sirva do calor do meu aquecedor. É o
      que ele tem até  demais. Assim não precisamos ter medo de incêndio.
      – Seria horrível!  exclamou Kennedy. É como se tivéssemos um barril de pólvora debaixo de
      nós.

      –  Absolutamente    respondeu  Fergusson.  Mas,  enfim,    caso  o  gás  se  incendiasse,  ele  se
      consumiria pouco a pouco e  desceríamos à terra, o que não iria agradar-nos. Mas não se
       preocupe, nosso aeróstato é hermeticamente fechado.
      – Então, o melhor é comermos agora  disse Kennedy.
      – Bem, senhores  interveio Joe , agora vou preparar  café.

      Instantes  depois,  três  xícaras  fumegantes  foram  servidas,    encerrando  almoço  substancial,
      temperado  pelo  bom-humor    dos  convivas,  após  o  que  cada  qual  voltou  ao  seu  posto  de
       observação.
      A região distinguia-se por sua extrema fertilidade. Veredas sinuosas e estreitas desapareciam
      sob abóbadas verdejantes. Passavam por cima de campos cultivados de tabaco, de milho  e de
      cevada, em pleno sazonamento. Aqui e ali, vastos arrozais com suas hastes eretas e suas flores
      vermelhas.  Distinguiam-se  carneiros  e  cabras  encerrados  em  grande  engradados  suspensos
      sobre  estacas,  para  livrá-los  dos  dentes  dos  leopardos.    Vegetação  luxuriante  florescia

      naquele  solo  pródigo.  Em  numerosas  aldeias  reproduziam-se  as  cenas  dos  gritos  e  da
      estupefação à vista do Vitória, e Fergusson conservava-se prudentemente fora do alcance das
      flechas. Os habitantes, agrupados em torno das cabanas próximas umas das outras, perseguiam
      por longo tempo os viajantes com suas inúteis imprecações.
      Ao  meio-dia,  o  doutor,  depois  de  consultar  seu  mapa,  deduziu  que  se  encontrava  sobre  a

      região de Uzaramo. As terras eram cobertas de coqueiros, de mamoeiros e de algodoeiros.
       Para Joe, em se tratando da África, aquela vegetação já  parecia bastante natural. Kennedy
      divisava lebres e codornizes que pareciam estar pedindo tiro de sua espingarda. Mas  seria
      desperdiçar pólvora, em vista da impossibilidade de  apanhar a caça.
      Os aeronautas caminhavam à velocidade de vinte quilômetros a hora e logo estavam sobre a
      aldeia de Tunda.
      – Foi ali  disse o doutor  que Burton e Speke foram  acometidos de febres violentas e julgaram

      por algum tempo que sua expedição estivesse perigando. Apesar de se encontrarem a pouca
      distância da costa, quase não podiam suportar  o cansaço e as privações que vinham sofrendo.
      Em  verdade,  naquela  região  reina  a  malária,  permanentemente. A  fim  de  evitar  que  ela  os
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