Page 41 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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entanto, meu caro comandante, poderia acontecer algum acidente irreparável ao balão e a
viagem estaria perdida. O melhor é agirmos com a máxima cautela.
– Mas que havemos de fazer?
– É simples respondeu o cônsul. Vêem aquelas ilhas que ficam para além do porto?
Desembarquem o aeróstato numa delas, cerquem-se de bom cordão de marinheiros e não
haverá risco algum.
– Ótima idéia! exclamou o doutor. Assim estaremos à vontade para terminar os preparativos.
O comandante rendeu-se perante este conselho. O Resoluto aproximou-se da ilha Cumbeni.
Durante a manhã de dezesseis de abril, o balão foi posto em segurança no meio de clareira
cercada de grandes matas.
Ergueram dois mastros de vinte e cinco metros de altura colocados um ao lado do outro. Um
jogo de roldanas fixas às suas extremidades permitia alçar o aeróstato por meio de cabo
transversal. Ele estava inteiramente vazio. O balão interno achava-se atado ao cimo do balão
externo, de maneira a ser também levantado.
Os dois tubos de introdução de hidrogênio foram fixados ao apêndice inferior de cada um dos
balões.
Passaram o dia dezessete a preparar o aparelha destinado a produzir o gás. Compunha-se de
trinta anéis, nos quais era conseguida a decomposição da água por meio da ferragem e do
ácido sulfúrico colocado em grande quantidade de água. O hidrogênio ia ter a vasto tonel
central, depois de ter sido lavado à sua passagem, e de lá introduzia-se nos aeróstatos através
dos tubos. Desta forma, podia-se perfeitamente determinar a quantidade de gás com que cada
um deles se enchia.
A operação teve início às três horas da madrugada, durando cerca de oito horas. No dia
seguinte, o aeróstato, já recoberto com a rede, oscilava graciosamente acima da barquinha,
contida por inúmeros sacos de terra. O aparelho de dilatação foi montado com excepcional
cuidado e os tubos que saíam do aeróstato adaptados à caixa cilíndrica.
As âncoras, as cordas, os instrumentos, as cobertas de viagem, o toldo e os mantimentos
ocupavam na barquinha os lugares que lhes eram destinados. O abastecimento de água devia
ser feito em Zanzibar. Os noventa quilos e meio de lastro foram repartidos em cinqüenta
sacos colocados ao fundo da barquinha, mas ao alcance da mão.
Os preparativos terminaram às cinco horas da tarde. Sentinelas velavam incessantemente em
volta da ilha, enquanto as lanchas do Resoluto patrulhavam o canal.
Os negros continuavam a manifestar a sua cólera por meio de gritos, caretas e gestos. Os
feiticeiros percorriam os grupos exaltados, insuflando ainda mais sua irritação. Alguns
fanáticos chegaram a tentar chegar à ilha a nado, mas foram facilmente afastados.
Começaram então os sortilégios e as bruxarias. Os fabricantes de chuva, que se gabavam de
poder comandar as nuvens, evocaram os furacões e os granizos. Para isso, colheram folhas de
toda a variedade de árvores da região. Enquanto as ferviam em fogo brando, matavam um
carneiro, introduzindo-lhe longa agulha no coração. Todavia, a despeito de suas estranhas
cerimônias, o céu permaneceu límpido. Os negros entregaram-se então a furiosas orgias.
Por volta das seis da tarde, último jantar reuniu os viajantes à mesa do comandante e seus
oficiais. Kennedy murmurava em voz baixa palavras entrecortadas e não tirava os olhos do
doutor Fergusson.
A refeição foi triste. Com a aproximação do momento supremo, ninguém podia evitar as

