Page 40 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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O VITÓRIA





      Vento constantemente favorável havia acelerado A  marcha do Resoluto. A passagem do canal
      de Moçambique  foi particularmente calma, e vaticinava boa travessia aérea.  Todos ansiavam
      pelo  momento  da  chegada,  quando  teriam    oportunidade  de  dar  a  última  demão  aos
      preparativos do  doutor Fergusson.
      Avistou-se finalmente a cidade de Zanzibar, situada na  ilha do mesmo nome. A quinze de

      abril, às onze horas da  manhã, o navio ancorava.
      A ilha de Zanzibar pertence ao chefe religioso de Mascate, aliado da França e da Inglaterra, e
      é, indubitavelmente,  sua mais bela colônia. O porto abriga considerável número  de navios
      provenientes de países vizinhos.
      Zanzibar só é separada da costa africana por um canal  cuja maior largura é de cinqüenta e
      cinco  quilômetros.  Possui  importante  comércio  de  borracha,  marfim,  ébano  e  é  grande

       mercado de escravos. Concentram-se lá todas as pilhagens  conquistadas nas batalhas em que
      os chefes do interior empenham-se incessantemente. O tráfego estende-se também a  toda a
      costa oriental.
      A chegada do Resoluto, o cônsul inglês em Zanzibar foi  a bordo e colocou seus préstimos à
      disposição do doutor.
      – Para dizer a verdade eu duvidava  confessou ele, estendendo a mão a Samuel Fergusson ,
      mas agora não duvido  mais do êxito da empresa.

      66  67      Ofereceu  sua  própria  residência  ao  doutor,  a  Dick    Kennedy  e,  naturalmente,  ao
      valoroso Joe.
      Para sua inquietação, Fergusson tomou conhecimento de  várias cartas que recebera do capitão
      Speke. O capitão e  seus companheiros haviam sido vítimas da fome e do mau  tempo antes de
      chegarem  à  região  de  Ugogo.  Só  conseguiram    avançar  com  grande  dificuldade  e  não
      imaginavam poder dar  novas noticias suas tão cedo.

      – São perigos e privações de que estaremos livres  ponderou o doutor.
      A  bagagem  dos  viajantes  foi  transportada  para  a  residência  do  cônsul.  Pensou-se  em
      desembarcar o balão na praia  de Zanzibar. Existia ali, próximo ao mastro de sinais, local
        apropriado,  junto  a  enorme  construção  que  o  abrigaria  dos    ventos  do  leste.  Entretanto,
      quando se tratava do desembarque do aeróstato, o cônsul foi advertido de que a população  da
      ilha estava disposta a empregar a força para impedi-lo.  Não há maior cegueira que as paixões
      fanatizadas. A noticia  da chegada de um cristão que pretendia elevar-se nos ares  foi recebida

      com irritação. Os negros, mais exaltados que os  árabes, viram no projeto intenções hostis á
      sua religião. Imaginavam que o destino dos viajantes seria o sol e a lua. Ora,  sendo os dois
      astros  objeto  de  veneração  por  parte  das  tribos    africanas,  resolveram  opor-se  tenazmente
      aquela expedição  sacrílega.
      O  cônsul  conferenciou  com  o  doutor  Fergusson  e  o  comandante  Pennet.  Este  não  desejava
      recuar ante as ameaças,  mas seu amigo explicou as razões pelas quais não deveriam  ser

      precipitados.
      – Certamente, se quisermos empregar a força, removeremos os obstáculos  disse o cônsul. No
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