Page 158 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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diversas peças foram sucessivamente jogadas fora, desaparecendo através de largos buracos
      abertos na folhagem dos sicômoros.
      Em  seguida,  passaram  a  ocupar-se  dos  tubos  instalados  no    balão  e  que  se  ligavam  à

      serpentina.  Joe  conseguiu  cortar  alguns  centímetros  acima  da  barca  as  articulações  de
      borracha, mas, no que se refere propriamente aos tubos, foi mais difícil,  pois estavam seguros
      pela extremidade superior e presos por  fios de latão ao círculo da válvula.
      Foi então que Joe mostrou a sua extraordinária agilidade. Descalço, para não prejudicar o
      invólucro, logrou, com  o auxílio da rede e apesar das oscilações, subir até ao cume exterior
      do  aeróstato,  e  lá,  após  mil  dificuldades,  seguro  com    uma  das  mãos  na  superfície

      escorregadia, desprendeu as porcas externas que retinham os tubos. Estes deslocaram-se então
      facilmente e foram retirados pelo apêndice inferior, hermeticamente fechado por meio de forte
      ligadura.
      Um circulo de fogo envolvia o Vitória...
      O Vitória, aliviado daquele peso considerável, ergueu-se  no ar esticando fortemente a corda
      da âncora.
      A meia-noite, os trabalhos estavam felizmente terminados,  embora à custa de grandes fadigas.

      Fizeram à pressa ligeira  refeição de conservas e grogue frio, pois Fergusson já não dispunha
      de calor para colocar à disposição de Joe.
      Aliás, tanto ele como Kennedy estavam a cair de cansaço.
      – Deitem-se e durmam, amigos  disse-lhe Fergusson.
      Eu farei o primeiro quarto. Às duas horas acordarei Kennedy o às quatro Kennedy acordará

      Joe. Às seis horas partiremos, o que Deus vele por nós durante esta última jornada!
      Sem se fazerem rogar, os dois companheiros do doutor  estenderam-se no fundo da barca e
      adormeceram de um sono  tão rápido quanto profundo.
      A noite era serena. Algumas nuvens destacavam-se contra o último quarto da lua, cujos raios
      débeis  mal  rompiam    a  escuridão.  Fergusson,  acotovelado  à  borda  da  barca,  passeava  os
      olhos em redor. Vigiava com atenção a negra cortina de folhagem estendida a seus pés e que
      lhe impedia  a vista do chão. O menor ruído parecia-lhe suspeito e ele  procurava interpretar
      até o mais ligeiro frêmito da ramaria.

      Em  verdade,  aquela  situação  nada  oferecia  de  tranqüilizadora,  numa  região  bárbara  e  com
      meio de transporte que  no fim de contas podia falhar de um momento para outro.  O doutor já
      não podia contar, inteiramente, com o seu balão.  Já se fora o tempo em que o manobrava com
      audácia, certo  da sua obediência.
      Dominado por estas impressões, imaginava por vezes surpreender rumores indeterminados na

      vasta  floresta.  Pareceu-lhe,  mesmo,  ver  brilhar  entre  as  árvores  rápido  clarão  e,    olhando
      vivamente,  assestou  o  seu  óculo  noturno.  Mas  nada    avistou  e  até  se  fez  silêncio  mais
      profundo.
      Fora decerto alucinação. Aplicou o ouvido sem perceber o menor barulho e, como o tempo do
      seu  quarto  tivesse  passado,  acordou  Kennedy,  recomendou-lhe  a  maior  vigilância  o  foi
      estender-se ao lado de Joe, que dormia profundamente.
      Kennedy acendeu o cachimbo com pachorra, esfregando  os olhos que mal podia conservar

      abertos, acomodou-se a um  canto e pôs-se a fumar com energia para expulsar o sono.
      Reinava à sua volta o mais completo silêncio. Um vento  leve agitava as copas das árvores e
      balançava docemente a  barca, convidando o caçador a um sono que a seu pesar o dominava.
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