Page 154 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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Qual?
          Precisamos  atravessar  montanhas,  e  vai  ser  difícil  porque  não  posso  aumentar  a  força
      ascensional do aeróstato,  mesmo produzindo o maior calor possível.

      – Esperemos, então, para ver o que sucede!  disse  Kennedy.
      – Pobre Vitória!  exclamou Joe. Afeiçoei-me a ele  como marinheiro ao seu navio. Já não é o
      que era à partida,  concordo, mas não devemos desprezá-lo. Prestou-nos reais serviços e será
      para  mim  uma  dor  no  coração  abandoná-lo!    Sossegue,  Joe.  Se  o  abandonarmos  será  a
      contragosto  de todos. Há de servir-nos até ao extremo das suas fôrças.  Só lhe peço mais
      vinte e quatro horas.

      – Está nas últimas!  tornou Joe, considerando-o.  Emagreceu, a vida foge-lhe. Pobre balão.
      – Se não me engano  interveio Kennedy , lá estão  no horizonte as montanhas de que falava,
      Samuel.
      – São elas  respondeu o doutor depois de tê-las examinado com o óculo. Parecem-me muito
      altas e não vai ser  fácil transpô-las.
      – Não poderíamos evitá-las?
      – Creio que não, Dick. Repare a enorme extensão  que ocupam: quase metade do horizonte!

      – Parece até que se apertam à volta de nós  disse Joe.  Avançam pela direita e pela esquerda.
      – Necessitamos absolutamente passar-lhes por cima.
      Os perigosos obstáculos pareciam aproximar-se com extrema rapidez ou, para melhor dizer, o
      vento muito forte  atirava o Vitória contra as agudos píncaros. Era preciso erguê-lo a todo o
      custo, sob pena de choque desastroso.

      – Despeje a caixa-d'água  ordenou Fergusson. Guardemos apenas o necessário para um dia.
      – Pronto!  respondeu Joe.
      – Ergueu-se o balão?  perguntou Kennedy.
      – Um pouco, talvez quinze metros  respondeu o doutor, que não tirava os olhos do barômetro.
      Mas ainda não  é bastante.
      Com  efeito,  os  altos  picos  aproximavam-se,  dando  a  impressão  de  que  os  viajantes  iam
      chocar-se com eles. Faltava  muito para sobrevoá-los, pelo menos duzentos metros. A reserva
      de água do maçarico foi igualmente jogada fora, conservando-se apenas alguns metros, mas

      isso também se revelou  insuficiente.
      – Temos de passar  continuou o doutor.
      – Lancemos fora as caixas, visto que já as esvaziamos   sugeriu Kennedy.
      – Pois seja.
      – Pronto!  disse Joe. É triste irmo-nos assim desfazendo aos pedaços.

      – Veja lá, Joe, não vá repetir a façanha do outro dia!  Suceda o que suceder, jure-me que não
      nos deixará!
      – Fique tranqüilo, meu amo, não nos separaremos mais.
      O Vitória conseguira subir cerca de quarenta metros, mas  a crista da montanha continuava
      sobranceira.  Era  uma  aresta    a  pique,  elevando-se  a  mais  de  setenta  metros  acima  dos
      viajantes.
      –  Dentro  de  dez  minutos  a  nossa  barca  se  despedaçará    contra  aqueles  rochedos,  se  não

      conseguirmos sobrevoá-los   declarou o doutor.
      – E então, senhor Samuel?  perguntou Joe.
      – Guarde só a carne de conserva e jogue fora todo o  resto que pesa.
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