Page 161 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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A perseguição dos talibas continuou toda a manhã. Pelas onze horas, os viajantes mal tinham
      feito trinta quilômetros  para oeste.
      O doutor espreitava as menores nuvens no horizonte, temendo sempre mudança atmosférica.

      Se fosse repelido para o Níger, que seria dele? Por outro lado, verificava que o balão tendia a
      baixar assustadoramente. Depois da saída já haviam  perdido mais de cem metros, e o Senegal
      devia distar vinte e  cinco quilômetros. Na velocidade em que iam, precisavam ainda de três
      longas horas de viagem.
      Naquele momento, novo alarido chamou-lhe a atenção.  Os talibas apressavam-se, esporeando
      os cavalos. O doutor  consultou o barômetro e percebeu a causa daquela agitação.

      – Estamos descendo?  perguntou Kennedy.
      – Estamos  respondeu Fergusson.
      – Diabo!  pensou Joe.
      Um quarto de hora depois, a barca não estava a mais de cinqüenta metros do solo, mas o vento
      soprava com mais  força. Os talibas fustigaram os cavalos e não demorou que  uma descarga
      de mosquetes explodisse nos ares.
      – Ainda estão muito longe, idiotas!  gritou Joe. Mas  acho bom ir mantendo esses patifes à

      distância.
      E  visando  um  dos  mais  avançados  cavaleiros,  disparou.    O  taliba  rolou  no  chão,  os
      companheiros estacaram e o Vitória  pede adiantar-se.
      – São prudentes!  notou Kennedy.
      – Porque estão certos de apanhar-nos  volveu o doutor , e vão consegui-lo se continuarmos a

      descer. Precisamos absolutamente subir!
      – Que mais havemos de jogar fora?  perguntou Joe.
      –  Tudo  o  que  resta  de  carne  em  conserva.  São  mais    quinze  quilos  de  que  nos
      desembaraçamos.
      – Pronto, senhor!  disse Joe, obedecendo às ordens  do amo.
      A barquinha, que quase raspava o chão, elevou-se em  meio aos gritos dos talibas, mas daí a
      meia  hora  o  balão  tornava  a  descer  velozmente  com  o  gás  escapando  pelos  poros  do
       invólucro. A barca não tardou a tocar no chão. Os negros  Al-Hadji correram, mas, como

      sempre acontece em casos desses, o Vitória, mal tocou em terra, deu um pulo e foi cair outra
      vez dois quilômetros adiante.
      – Não conseguiremos escapar!  disse Kennedy furioso.
      – Lance fora à reserva de aguardente, Joe  gritou o  doutor , os instrumentos e tudo quanto
      representa algum  peso, até a âncora, visto que assim é preciso!

      Joe arrancou os barômetros e os termômetros, mas isso  era pouco, e o balão, que subira um
      momento,  logo  voltou    a  cair.  Os  talibas  voavam-lhe  no  encalço,  não  distantes  mais    de
      duzentos passos.
      – Jogue fora as espingardas!  gritou o doutor.
      – Não pelo menos antes de as ter descarregado  respondeu o caçador.
      E quatro tiros sucessivos fenderam a massa dos cavaleiros, onde quatro talibas tombaram em
      meio aos gritos frenéticos do bando.

      O Vitória tornou a erguer-se. Dava saltos enormes como  imensa bala elástica ricocheteando
      no chão. Singular espetáculo o daqueles desventurados tentando fugir em gigantescas passadas
      e que, à maneira de Anteu, pareciam readquirir  novas fôrças cada vez que tocavam terral Mas
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