Page 153 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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PARADA ACIMA DE UM BOSQUE





      A vinte e sete de maio, pelas dez horas da manhã, A região apresentou-se com novo aspecto.
      As extensas rampas mudavam-se em colinas fazendo prever montanhas próximas. Tinham de
      transpor a cadeia que separa o vale do Niger do  vale do Senegal e determina o escoamento
      das águas tanto  para o golfo de Guiné como para a baía de Cabo Verde.  Até ao Senegal, essa
      parte  da  África  é  tida  como  perigosa.    O  doutor  Fergusson  sabia-o  pelos  relatos  dos  seus

      antecessores,    que  haviam  sofrido  mil  privações  e  corrido  mil  perigos  entre  os  negros
      bárbaros.  O  clima  funesto  devorou  a  maior  parte    dos  companheiros  de  Mungo-Park.
      Fergusson estava, portanto,  mais do que decidido a não descer naquela terra inóspita.
      Mas não teve um momento de descanso. O Vitória baixava de maneira sensível e foi preciso
      desfazer-se de outra  porção de objetos mais ou menos inúteis, sobretudo quando tiveram de
      passar uma crista. E foi assim durante mais duzentos quilômetros. Cansaram-se de subir e de

      descer. O balão, novo rochedo de Sísifo, recaía incessantemente, e as forIrias do aeróstato, já
      um pouco murcho, distendiam-se mais.  O vento cavava-lhe extensas depressões no invólucro
      meio flácido.
      Kennedy não pôde deixar de fazer uma observação:   Terá o balão alguma ruptura?
      – Não  respondeu o doutor. Mas a guta-percha evidentemente amoleceu ou derreteu-se com o
      calor e o hidrogênio escapa através do tafetá.
      – Não haverá meio de impedir a fuga?

      – É impossível. Aliviar-nos é o único meio. Lancemos  fora tudo o que for dispensável.
      – Mas o quê?  tornou o caçador, olhando a barca já  bem desguarnecida.
      – Desembaracemo-nos do toldo, cujo peso é bastante considerável.
      Joe, a quem a ordem dizia respeito, subiu ao círculo  onde se enfeixavam as cordas da rede e
      facilmente desprendeu  os pesados panos do toldo, jogando-os fora.
      – Isto vai fazer a felicidade de toda uma tribo de negros   disse ele. Há aí com que vestir um

      milheiro de indígenas,  que são bastante econômicos em matéria de pano.
      O balão ergueu-se um pouco, mas logo se tornou claro  que voltava a aproximar-se do solo.
      – Desçamos  propôs Kennedy  a ver o que se pode  fazer com o invólucro.
      – Asseguro-lhe, Dick, que não temos meio algum de  consertá-lo.
      Mas então que faremos?
      –  Sacrifiquemos  tudo  o  que  não  for  absolutamente  indispensável.  Quero  a  qualquer  preço
      evitar descida nestas paragens. As florestas que estamos sobrevoando não oferecem  a menor

      segurança.
      – Haverá leões, hienas?  atalhou Joe com desdém.
      – Pior do que isso, meu rapaz: homens, e os mais cruéis  de toda a África.
      – Como é que se sabe?
      – Pelos viajantes que nos antecederam. Não estamos  muito longe do rio Senegal  acrescentou
      o doutor , mas  prevejo que o nosso balão não nos levará até à outra margem.

      – Se chegarmos à margem de cá  replicou o caçador   já será vantagem.
      – É o que estou tentando  volveu o doutor. Apenas  uma coisa me inquieta.
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