Page 162 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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uma tal situação não podia prolongar-se. Era quase meio-dia. O Vitória esgotava-se,
esvaziava-se, adelgaçava-se, o invólucro ia-se tornando flácido e flutuante, as pregas do tafetá
já se esfregavam umas nas outras.
O céu abandona-nos! disse Kennedy. Joe não respondeu, observando o amo.
– Não volveu este. Temos ainda setenta e cinco quilos a jogar fora.
– O quê? perguntou Kennedy, julgando que o doutor enlouquecera.
– A barca respondeu este. Agarremo-nos à rede! Podemos pendurar-nos nas malhas e
alcançar o rio. Depressa, depressa!
E aqueles homens corajosos não hesitaram em tentar semelhante meio de salvação.
Seguraram-se às malhas da rede, como ensinara o doutor, e Joe, agüentando-se com uma só
mão, cortou as cordas da barquinha, a qual tombou no justo momento em que o aeróstato ia
definitivamente abater-se.
– Hurra! hurra! gritou ele, enquanto o balão deslastrado subia cem metros no ar.
Os talibas fustigavam cada vez mais os cavalos, correndo em desfilada, mas o Vitória,
achando vento mais ativo, ultrapassou-os de muito e rompeu em direção a uma colina que
barrava o horizonte a oeste. Foi uma circunstância favorável para os viajantes, que puderam
transpô-la enquanto a horda de Al-Hadjis era forçada a contornar pelo norte o derradeiro
obstáculo.
Os três amigos mantinham-se agarrados à rede, que haviam conseguido amarrar por baixo e
formava agora uma espécie de bolsa flutuante. Bruscamente, uma vez transposta a colina o
doutor gritou:
– O rio! O rio! O Senegal!
Com efeito, quatro quilômetros adiante, rolava extensa massa de água. A margem oposta,
baixa e fértil, oferecia retiro seguro e ponto favorável para operar a descida.
– Mais um quarto de hora acrescentou Fergusson e estaremos salvos!
Mas não havia de ser assim. O balão vazio caía pouco a pouco em terreno quase inteiramente
desprovido de vegetação. Eram grandes declives e planos pedregosos. Apenas algumas moitas
e erva densa e ressequida pelos ardores do sol.
Várias vezes o Vitória tocou o chão e ergueu-se. Seus pulos diminuíam de altura e extensão.
Por fim, prendeu-se pela parte de cima da rede aos ramos de um baobá, única árvore isolada
em meio àquela região desértica. É o fim disse o caçador.
– E a cem passos do rio! lamentou Joe.
Os três infelizes desceram e o doutor arrastou os dois companheiros para o Senegal. Naquele
ponto o rio fazia ouvir mugido prolongado, e, ao chegar à margem, Fergusson reconheceu as
quedas de Gouinal. Nenhum barco no rio, nenhum ser animado! Numa largura de setecentos
metros o Senegal precipitava-se de altura de cinqüenta, com ruído ensurdecedor. Corria de
leste para o este, e a linha de rochedos que lhe barrava o curso estendia-se de norte para sul.
No meio da queda erguiam-se penedos de forma estranha, como imensos animais
antediluvianos petrificados no meio das águas.
A impossibilidade de atravessar aquele abismo era evidente. Kennedy não pôde conter um
gesto de desespero, mas o doutor Fergusson, com tom de audácia na voz, gritou:
– Nem tudo está perdido!
– Eu bem sabia! respondeu Joe, com aquela confiança no amo que jamais o abandonava.
A vista daquela erva ressequida inspirara ao doutor ousada idéia, que era a única esperança

