Page 160 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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O RIO SENEGAL
Se não tivéssemos tido a precaução de nos aliviarmos ontem à noite comentou o doutor,
estaríamos agora perdidos sem remédio!
– É o resultado de se fazerem as coisas a tempo replicou Joe. Acabamos salvando-nos e não
há nada mais natural.
– Ainda não estamos fora de perigo volveu Fergusson. Que receia mais? perguntou Dick. O
Vitória não pode descer sem sua licença. E se descesse? Se descesse, Dick? Olhe!
Acabavam de passar a orla da floresta e os viajantes puderam avistar cerca de trinta
cavaleiros de largas calças e albornozes ondeantes. Estavam todos armados, uns com lanças e
outros com longos mosquetes, seguindo ao ligeiro galope dos seus cavalos fogosos na esteira
do Vitória, que avançava em marcha moderada. Ao verem os viajantes, soltaram gritos
selvagens, brandindo raivosamente as armas. A cólera e as ameaças transpareciam nos rostos
morenos, tornados mais ferozes por uma barbicha rala, mas eriçada, e atravessavam sem
dificuldades as planuras e brandos declives que descem para o Senegal.
– São realmente os ferozes talibas! tornou o doutor. Antes queria estar em plena floresta, no
meio de um círculo de feras, do que cair nas mãos desses bandidos!
– Não parecem muito tratáveis! interveio Kennedy e são uns latagões de causar respeito!
– Felizmente essas feras não voam observou Joe. Sempre é alguma coisa.
– Vejam tornou Fergusson , aldeias em ruínas, cabanas incendiadas! Tudo isso é obra deles!
Enfim, não nos podem alcançar teimou Kennedy , e se conseguirmos meter o rio de permeio
estaremos em segurança.
– Com efeito, Dick, mas para isso é indispensável não cairmos respondeu o doutor, lançando
os olhos ao barômetro.
– De qualquer modo, Joe volveu Kennedy , não será mau irmos preparando as nossas armas.
– Não há dúvida, senhor Dick, e agora aparece a vantagem de as não termos jogado fora no
caminho.
– Ah! Minha carabina! bradou o caçador espero nunca me separar de ti! E Kennedy pôs-se a
carregá-la com todo amor. Tinha ainda pólvora e balas em quantidade suficiente.
– A que altura estamos? perguntou ele a Fergusson.
– Mais ou menos a duzentos e cinqüenta metros, mas já não temos a faculdade de procurar
correntes favoráveis, subindo ou descendo. Estamos à mercê do balão.
– É pena volveu Kennedy. O vento é bem fraco, e se encontrássemos um furacão igual ao de
dias passados há muito esses bandidos nos teriam perdido de vista.
– Os malditos nos vêm seguindo facilmente a pequeno trote disse Joe. Como se fosse num
passeio.
– Se os tivesse ao meu alcance, havia de divertir-me a desmontá-los um após outro
acrescentou o caçador.
– Que está dizendo! exclamou Fergusson. Nesse caso também nós ficaríamos ao alcance
deles e o nosso Vitória seria alvo excelente para as balas dos seus compridos mosquetes. E
se conseguissem vará-lo, bem pode calcular a nossa situação!

