Page 163 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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de salvação. Arrastou  outra vez os companheiros para o invólucro do aeróstato.
      – Temos pelo menos uma hora de avanço sobre aqueles  bandidos  disse ele  e, portanto,
      amigos, não podemos  perder tempo. Apanhem grande quantidade de ramos secos, necessito

      de pelo menos cinqüenta quilos dela. Não tenho  mais gás? Pois bem1 atravessarei o rio com
      ar quente!
      – Ah! Meu valente Samuel!  exclamou Kennedy  você  é verdadeiramente um grande homem!
      Joe e Kennedy lançaram-se ao trabalho e em breve um  monte enorme foi empilhado junto ao
      baobá.
      Enquanto isso o doutor aumentara o orifício do aeróstato, cortando-o na sua parte inferior,

      tendo o cuidado prévio  de fazer sair pela válvula tudo o que lá restava de hidrogênio.  Em
      seguida, amontoou certa quantidade de galhos secos sob  o invólucro e pôs-lhe fogo. Pouco
      tempo  se  necessita  para    encher  um  balão  com  ar  quente.  Uma  temperatura  de  cem    graus
      centígrados  basta  para  reduzir  de  metade  o  peso  de  ar    que  ele  encerra,  rarificando-o.  O
      Vitória começou assim a retomar notoriamente a sua forma arredondada. Não faltavam ramos,
      o lume ativava-se pelos cuidados do doutor e o  aeróstato crescia . olhos vistos. Era então
      uma hora menos  um quarto.

      Naquele  momento,  quatro  quilômetros  ao  norte  surgiu  o    bando  dos  talibas  cujos  gritos  se
      ouviam, bem como o galope dos cavalos lançados a toda brida.
      – Dentro de vinte minutos estarão aqui  disse Kennedy.
      – Lenha! Lenha, Joe! daqui a dez minutos estaremos  em pleno ar!  Pronto, meu amo!
      O Vitória estava com dois terços do seu volume.

      – Amigos, agarremo-nos outra vez à rede!
      – Cá estamos!  respondeu o caçador.
      Ao fim de dez minutos, algumas sacudidelas do balão  indicaram a sua tendência para subir.
      Os talibas aproximavam-se, vinham apenas a quinhentos passos.
      – Segurem-se bem!  gritou Fergusson.
      – Não tenha receio, meu amo! não tenha receio!
      E com o pé o doutor empurrou para a fogueira novo  monte de galhos.
      O  balão,  completamente  dilatado  pelo  aumento  de  temperatura,  elevou-se  raspando  pela

      ramaria do baobá.
      – A caminho!  bradou Joe.
      Respondeu-lhe descarga de mosquetes, uma bala aflorou-lhe mesmo o ombro. Mas Kennedy,
      inclinando-se e disparando a sua carabina, jogou por terra mais um inimigo.  Gritos de ódio
      impossíveis de descrever acolheram a fuga do  aeróstato, que subiu a cerca de duzentos e

      cinqüenta  metros.    Um  vento  rápido  apanhou-o,  forçando-o  a  algumas  inquietadoras
      oscilações,  enquanto  o  intrépido  doutor  e  seus  companheiros  contemplavam  o  abismo  das
      cataratas  que  se  lhes    abria  sob  os  olhos.  Dez  minutos  depois,  sem  haverem  trocado  uma
      palavra, os valentes aeronautas desciam lentamente para  a outra margem do rio.
      Ali, surpreendido, maravilhado, espantado, via-se um  grupo de dez homens, envergando o
      uniforme francês. Imagine-se a admiração deles quando viram o balão erguer-se na margem
      direita  do  rio.  Não  estavam  longe  de  acreditar  em    fenômeno  celeste.  Mas  os  chefes,  um

      tenente  de  marinha  e  um  guarda-marinha,  conheciam  pelos  jornais  da  Europa  a  audaciosa
      tentativa do doutor Fergusson e imediatamente compreenderam o que se passava.
      O balão, desinflando-se pouco a pouco, caía com os ousados passageiros agarrados à rede e
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