Page 159 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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Ainda quis resistir-lhe, abriu várias vezes as pálpebras, enviou à escuridão alguns desses
olhares que já nada vêem e, por fim, sucumbindo à fadiga, adormeceu.
Quanto tempo ficou mergulhado naquele estado de inércia? Não o podia saber ao acordar
subitamente, estremunhado por crepitação inexplicável.
Esfregou os olhos e levantou-se com forte calor no rosto. A floresta estava em chamas.
– Fogo! Fogo! gritou ele sem compreender ainda bem o que se passava.
Os dois companheiros levantaram-se. Que há? perguntou Samuel.
– Um incêndio! bradou Joe. Mas quem pôde... Naquele momento explodiram uivos sob a
folhagem violentamente iluminada.
– Ah! Foram os selvagens! gritou Joe. Incendiaram a floresta para queimar-nos com mais
segurança!
– Devem ser os Talibas! disse o doutor.
Um círculo de fogo envolvia o Vitória. O crepitar da madeira seca misturava-se ao ranger dos
ramos verdes. As lianas e as folhas, toda a parte viva da vegetação se estorcia em meio ao
elemento destruidor. O olhar contemplava aperias um oceano de chamas. As árvores
destacavam-se em preto naquela fornalha, com a ramaria bordada de carvões incandescentes
e o conjunto ígneo, o imenso braseiro refletia-se nas nuvens, envolvendo os viajantes como
em esfera de fogo.
– Fujamos! berrou Kennedy para terra! Mas Fergusson deteve-o com mão firme e correndo
para a corda da âncora cortou-a com um golpe de machado. As labaredas estendiam-se para
o balão, lambendo-lhe já as paredes iluminadas, mas o Vitória livre das amarras subiu nos
ares mais de trezentos metros. Gritos espantosos ressoaram na floresta, seguidos de
numerosas detonações de armas de fogo. O balão, levado por corrente que soprava com o
romper do dia, afastou-se para oeste.
Eram quatro horas da manhã.

