Page 150 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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Nos terraços e nos tetos estava amontoada toda a forragem colhida nos arredores.
      – É Cabral  bradou alegremente o doutor. É o porto de Tombuctu. A cidade não dista dez
      quilômetros daqui!   Está tão contente, meu amo?  perguntou Joe, Encantado, meu rapaz.

      – Bem, tanto melhor assim.
      Com  efeito,  daí  a  duas  horas  a  rainha  do  deserto,  a  misteriosa  Tombuctu,  que  teve,  como
      Atenas e Roma, as suas  escolas de sábios e as suas cátedras de filosofia, patenteou-se  aos
      olhos dos viajantes. Fergusson seguia-lhes todos os pormenores no plano traçado pelo próprio
      Barth, comprovando-lhe a extrema exatidão.
      A cidade forma vasto triângulo, em enorme planície de  areia branca. A ponta dirige-se para o

      norte e corta uma orla  do deserto. Nada nos arredores, a não ser algumas gramíneas, mimosas
      anãs  e  arbustos  raquíticos.  Quanto  ao  aspecto  de  Dir-se-ia  que  eram  ruínas  lendárias  de
      imensa cidade da Idade Média...
      Tombuctu, imagine-se um amontoado de dados e bolas de  bilhar. É o efeito que produz vista
      de cima. As ruas, bastante estreitas, são ladeadas de casas de um só pavimento, construídas de
      tijolos cozidos ao sol e de choças de palha  e caniços, estas cônicas e aquelas quadradas. Nos
      terraços,  vêem-se indolentemente estendidos alguns habitantes com as  suas roupas coloridas,

      de lança ou mosquete na mão. Mulheres não há, a essa hora do dia.
      – Mas dizem que são bonitas  acrescentou o doutor.  Lá estão as três torres das três mesquitas,
      únicas que restam  de um grande número. A cidade perdeu muito do seu antigo esplendor! No
      vértice  do  triângulo,  ergue-se  a  mesquita  de    Sancore,  com  as  suas  galerias  mantidas  por
      arcadas de desenho bastante puro. Mais além, perto do bairro de SaneGungu, a mesquita de

      Sidi-Yahia e algumas casas de dois  andares. Não busqueis palácios ou monumentos. O xeque
      é  simples traficante e a sua morada real um balcão.
      – Parece-me que estou vendo muralhas meio demolidas   disse Kennedy.
      –  Foram  destruídas  pelos  fulanas  em  1825.  A  cidade  era    então  três  vezes  maior,  pois
      Tombuctu, desde o século XI  objeto de cobiça geral, pertenceu sucessivamente aos tuaregues,
      aos sonraianos, aos marroquinos e aos fulanas. E esse  grande centro de civilização, onde um
      sábio como AkmedBaba possuía, no século XVI, biblioteca de mil e seiscentos manuscritos,
      não passa hoje de entreposto de comércio da África  Central.

      A cidade parecia, efetivamente, abandonada. Revelava  o descuido epidêmico das cidades
      que  decaem.  Imensas  ruínas  se  amontoavam  nos  subúrbios  e  formavam  com  a  colina  do
      mercado  os  únicos  acidentes  do  terreno. A  passagem  do    Vitória,  houve  certo  alvoroço  e
      batidas de tambor. Contudo,  foi tão rápida que mal deu tempo para que o último sábio  da
      cidade  corresse  para  observar  o  novo  fenômeno.  Os  viajantes,  impelidos  pelo  vento  do

      deserto, retomaram o curso  sinuoso do rio e dentro em pouco Tombuctu era apenas mais uma
      das rápidas lembranças daquela viagem.
      – E agora  disse o doutor  que Deus nos leve para  onde melhor entender.
      – Contanto que seja para oeste!  replicou Kennedy.
      – Oral  interveio Joe  ainda que fosse preciso voltar  a Zanzibar pelo mesmo caminho, ou
      atravessar o oceano até  à América, isso não me assustaria!
      – Em primeiro lugar era preciso que fosse possível, Joe.

      – E que nos falta para isso?
      – Gás, meu amigo. A força ascensional do balão diminui  sensivelmente, e teremos de fazer
      grandes economias para que  ele nos leve até à costa. Serei mesmo obrigado a jogar lastro
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