Page 149 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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OS MONTES HOMBORI





      Durante  o  dia  enfadonho  de  segunda-feira,  o  doutor  Fergusson  entreteve-se  a  dar  aos
      companheiros mil pormenores  sobre a região que iam atravessando. O solo bastante plano
      não  oferecia  qualquer  obstáculo  à  marcha.  A  única  preocupação  do  doutor  provinha  do
      maldito vento do nordeste que  soprava com violência e o afastava da latitude de Tombuctu.
      O Níger, depois de subir ao norte até àquela cidade,  arredonda-se como imenso jato de água

      e vai lançar-se no  oceano Atlântico, como feixe que se desatasse. Nesse cotovelo, o terreno é
      muito  variado,  às  vezes  de  luxuriante  fertilidade,  outras  de  extrema  aridez.  As  planícies
      incultas  sucedem-se  aos  milhares,  por  sua  vez  seguidas  de  vastas  extensões  cobertas  de
      giestas. Todas as espécies de aves aquáticas, pelicanos, cercetas, pica-peixes e outras, vivem
      em numerosos  bandos, à borda das torrentes e dos lamaçais.
      Surgiam, de vez em quando, acampamentos de tuaregues.  Abrigavam-se debaixo de tendas de

      couro, enquanto as mulheres se ocupavam dos trabalhos exteriores, ordenhando as camelas e
      fumando compridos cachimbos.
      Pelas oito horas da noite, o Vitória andara mais de trezentos  quilômetros na direção do oeste,
      e os viajantes foram então  testemunhas de magnífico espetáculo.
      Raios de luar abriram caminho por uma fissura das  nuvens e, deslizando entre as riscas de
      chuva,  caíram  sobre    a  cadeia  dos  montes  Hombori.  Nada  mais  estranho  do  que    aqueles
      píncaros  de  aparência  basáltica.  Perfilavam-se  como    silhuetas  fantásticas  no  céu  que

      escurecia. Dir-se-ia que eram  ruínas lendárias de imensa cidade da Idade Média, espetáculo
      igual  ao  que  oferecem  em  noites  sombrias,  ao  olhar  deslumbrado  do  viajante,  as  enormes
      massas de gelo dos mares  glaciais.
      – Não parece paisagem dos Mistérios de Udolfo?  perguntou o doutor. Ana Radcliff não teria
      desenhado estas  montanhas com aspecto mais aterrador.
      – Credo!  exclamou Joe. Eu não gostaria de andar  sozinho à noite nesta região de fantasmas.

      Quer  saber  de    uma  coisa,  patrão?  Se  não  fosse  tão  difícil,  levaria  esta  paisagem  para  a
      Escócia. Ficaria ótima nas margens do lago Lamond e tudo que é turista havia de querer vê-Ia.
      –  Nosso  balão  não  é  tão  grande  assim  para  que  você    possa  fazer  uma  coisa  dessas,  Joe.
      Parece, porém, que estamos mudando de direção. Ainda bem! Os duendes do lugar  são muito
      amáveis. Estão soprando um ventinho sudeste que  nos vai fazer voltar ao caminho certo.
      Efetivamente, o Vitória retomou direção mais para o norte  e no dia vinte, de manhã, passou
      por cima de intrincada  rede de canais, de torrentes e de rios: o emaranhamento completo dos

      afluentes do Níger. Alguns desses canais, cobertos  de relva espessa, tinham a aparência de
      viçosos prados. Foi  aí que o doutor encontrou o caminho de Barth, quando este embarcou no
      rio para descer até Tombuctu. Com a largura  de mil e seiscentos metros, o Níger corria entre
      duas margens  abundantes em crucíferos e tamarindos. Rebanhos saltitantes  de gazelas, com
      chifres  espiralados,  metiam-se  pela  relva  crescida,  onde  crocodilos  silenciosos  estavam  à
      espreita.

      Longas filas de jumentos e camelos, carregados de mercadorias de Jenné, mergulhavam sob
      aquelas árvores magníficas. Depois surgiu um anfiteatro de casas baixas numa volta  do rio.
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