Page 77 - 2M A INTRUSA
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                         Branca! Era a mulher branca que ele preferia, desprezando com asco as da
                  sua raça.
                         A superioridade daquela que ia toc-toc na sua frente exasperava-o. O seu
                  humor inalterável, os seus hábitos de asseio e de ordem não lhe tinham dado ensejo
                  para a intriguinha fácil e perturbadora. Chegara o dia de castigar a afronta daquela
                  branca intrometida, que ele odiava, e ardia por esmagar com a divulgação de algum
                  segredo que a comprometesse. Desprezava o ardil pela verdade; mas, se esta lhe
                  escapasse, então recorria a tudo, até ao feitiço de algum velho parceiro africano.
                         Mas desse recurso extremo só lançaria mão quando não pudesse contar com
                  os da sua inteligência e malignidade.
                         Tinha ainda na memória uma sentença materna: "quem faz feitiço morre de
                  feitiço", e essa idéia afligia-o. A mãe era filha de mina. Devia saber... aquela branca
                  pobre e presunçosa, que era mais do que ele na ordem das coisas, para o tratar
                  assim por cima do ombro, com um arzinho superior de patroa fidalga?

                         – Ela há de me pagar!


                         O que ele queria agora era saber bem da sua vida, penetrar no mistério
                  daquela existência flutuante, sem raízes conhecidas; assenhorear-se de um segredo
                  que a tornasse escrava da sua vontade poderosa.
                         Como aos de Adolfo Caldas, ela também representava aos seus olhos o
                  encardido papel de especuladora.
                         Não era outra coisa; mas a intrusa teria o seu castigo, zurzido com mão de
                  ferro, na hora marcada pela sua justiça.
                         O arrependimento entraria, então, no coração de Argemiro.
                         O bonde tardava e Alice não diminuía o ritmo dos passos. Antes assim; ele
                  gostava de ir andando a pé, atrás daquela figurinha nervosa e fugidia.
                         Quem tanto se apressa, corre para a felicidade, que para o aborrecimento o
                  passo é tardo. Pensava o negro: "Ela vai para alguma entrevista de amor..."
                         Isso contrariava-o... e crescia-lhe com essa idéia a raiva pela usurpadora dos
                  seus regalados descansos e da sua autoridade de chefe!
                         Ela matara o seu prestígio. Viesse quem viesse depois dela, encontraria
                  lançada na casa a semente da desconfiança. Fora um dia o Feliciano, que lia jornais
                  nas cadeiras do amo, com deliciosos charutos entalados entre os beiços.
                         Um bonde! E o bonde parou a um gesto de Alice, que subiu para um dos
                  bancos da frente, aconchegando com um arrepio o casaco cor de mel ao corpo
                  friorento.
                         Feliciano, em pé na plataforma, não a perdia de vista.
                         No largo do Machado ela desceu e, passando pela frente da igreja, tomou a
                  direção da rua Bento Lisboa.
                         O negro, a pequena distância, ia atrás dela, dando graças ao vento que fazia
                  ulular o arvoredo da praça, abafando outros rumores. Na rua Bento Lisboa, Alice
                  acelerou a marcha. Parecia levada por um grande desejo. Feliciano espiava-a aflito,
                  numa ansiedade!
                         A sua admiração era não ver aparecer um homem, a quem ela desse o braço,
                  que a comprometesse e o ajudasse na intriga... De resto, ele não queria crer, queria
                  denunciar!
                         De repente estacou; a moça sumira-se na portinha negra de uma casa antiga,
                  meio arruinada.


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