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                         – Por que seria, vovó?
                         – Porque geralmente mulheres assim não têm família.
                         – Coitadas! Mas assim como? D. Alice é como as outras!
                         – Talvez mais bonita...
                         – Não... Ontem então ela estava com os olhos tão pisados!
                         – Pobre infeliz!
                         – Eu queria que vovó gostasse dela!
                         – Para quê? Estamos muito bem assim... Cada um no seu lugar!
                         – Já tenho aprendido muita coisa com ela...
                         – Deus queira que não aprendas tudo!
                         – Papai gosta que ela me ensine!
                         – Ah...
                         – Padre Assunção também... Ele ontem assistiu à minha primeira lição de
                  desenho. Uma lição só por semana é pouco... Vovó deixa D. Alice vir cá de vez em
                  quando dar-me outra lição?
                         – Nunca!


                         Glória recuou espantada; a velha conteve-se, e depois:

                         – Os retratos de tua mãe ainda estão nos mesmos lugares?
                         – Estão... um em cima do piano... outro no escritório... outro no quarto de
                  papai...
                         – Já tiraram o do quarto de toalete?!
                         – Ah! é verdade! e outro no quarto de toalete! Como vovó se lembra!
                         – Minha pobre filha!
                         – O do quarto do papai está ficando branco...
                         – Até desaparecer! É que a imagem de Maria está sumindo ao mesmo tempo
                  da memória e do papel! – disse a baronesa abafando um suspiro.
                         – Da memória de quem?!
                         – Vai brincar, minha Glória; corre, faze das tuas brutalidades antigas... quero
                  ouvir os teus gritos, as tuas risadas... Onde está a tua cabrinha? Já nem fazes caso
                  dela!
                         – Como não?! D. Alice até me prometeu uma coleira para ela!
                         – Já me tardava...

                         As mãos da avó afrouxaram. Glória fugiu para o quintal.

                         – Está tudo acabado! Venceu e domina a todos. Glória, a filha da minha filha,
                  talvez já ame à outra mais do que a mim!... Tem trabalhado, a maldita... e não há
                  quem defenda a minha pobre Maria! Nem o Assunção... ninguém!...

                         A baronesa revia a cena, que não lhe saía diante dos olhos: Maria, recostada
                  nos almofadões da cama, muito diáfana, com os cabelos louros espalhados sobre os
                  ombros magros e os olhos engrandecidos, circulados de violeta... À sua cabeceira,
                  em pé, o padre Assunção, lívido, com os olhos velados por uma expressão de
                  agonia dominada. Argemiro, de joelhos ao lado da moribunda; ela aos pés da cama,
                  de mãos postas, olhando, na insensata esperança do milagre!
                         Na sua alma ecoava ainda a vozinha da filha:

                         – Jura, Argemirão, que não te tornarás a casar...

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