Page 81 - 2M A INTRUSA
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– Por que seria, vovó?
– Porque geralmente mulheres assim não têm família.
– Coitadas! Mas assim como? D. Alice é como as outras!
– Talvez mais bonita...
– Não... Ontem então ela estava com os olhos tão pisados!
– Pobre infeliz!
– Eu queria que vovó gostasse dela!
– Para quê? Estamos muito bem assim... Cada um no seu lugar!
– Já tenho aprendido muita coisa com ela...
– Deus queira que não aprendas tudo!
– Papai gosta que ela me ensine!
– Ah...
– Padre Assunção também... Ele ontem assistiu à minha primeira lição de
desenho. Uma lição só por semana é pouco... Vovó deixa D. Alice vir cá de vez em
quando dar-me outra lição?
– Nunca!
Glória recuou espantada; a velha conteve-se, e depois:
– Os retratos de tua mãe ainda estão nos mesmos lugares?
– Estão... um em cima do piano... outro no escritório... outro no quarto de
papai...
– Já tiraram o do quarto de toalete?!
– Ah! é verdade! e outro no quarto de toalete! Como vovó se lembra!
– Minha pobre filha!
– O do quarto do papai está ficando branco...
– Até desaparecer! É que a imagem de Maria está sumindo ao mesmo tempo
da memória e do papel! – disse a baronesa abafando um suspiro.
– Da memória de quem?!
– Vai brincar, minha Glória; corre, faze das tuas brutalidades antigas... quero
ouvir os teus gritos, as tuas risadas... Onde está a tua cabrinha? Já nem fazes caso
dela!
– Como não?! D. Alice até me prometeu uma coleira para ela!
– Já me tardava...
As mãos da avó afrouxaram. Glória fugiu para o quintal.
– Está tudo acabado! Venceu e domina a todos. Glória, a filha da minha filha,
talvez já ame à outra mais do que a mim!... Tem trabalhado, a maldita... e não há
quem defenda a minha pobre Maria! Nem o Assunção... ninguém!...
A baronesa revia a cena, que não lhe saía diante dos olhos: Maria, recostada
nos almofadões da cama, muito diáfana, com os cabelos louros espalhados sobre os
ombros magros e os olhos engrandecidos, circulados de violeta... À sua cabeceira,
em pé, o padre Assunção, lívido, com os olhos velados por uma expressão de
agonia dominada. Argemiro, de joelhos ao lado da moribunda; ela aos pés da cama,
de mãos postas, olhando, na insensata esperança do milagre!
Na sua alma ecoava ainda a vozinha da filha:
– Jura, Argemirão, que não te tornarás a casar...
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