Page 105 - 2M A INTRUSA
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                         – Não... Por enquanto ainda são os azuis...
                         – Os demônios têm força... Agora!
                         – Bravo!
                         – Viva!
                         – Bravo! – gritaram muitas vozes a um tempo, numa explosão de entusiasmo.
                  Ao lado deles um moço gordo berrava, agitando o chapéu. Teles sacudiu a cinza do
                  charuto da lapela da sua sobrecasaca avelã, onde sorria a graça de uma orquídea
                  lilás, e voltou-se todo para o pavilhão.

                         Sinhá debruçava-se no pavilhão do júri, com as faces afogueadas e o olhar
                  chamejante. A seu lado, a mãe lambiscava bombons e as Moreiras, do Catete,
                  sacudiam os lenços com frenesi:

                         – É o Boqueirão!
                         – É o Flamengo!
                         – Não...
                         – É!
                         – Bravo!
                         – Bravo!

                         Os nomes dos clubes andavam no ar, como as gaivotas. Afinal, um deles
                  ganhou o páreo. Rompeu a música e a baleeira vitoriosa veio receber as saudações,
                  que rebentavam em palmas por todo o cais, como uma onda. Ao passar pelo
                  pavilhão, Sinhá, toda debruçada, vermelha como uma rosa, atirou-lhe o seu ramo de
                  violetas. Aparou-o no ar um rapaz loiro, batido de sol, de rija musculatura e olhos
                  brilhantes. Trocaram um sorriso luminoso.

                         – A mocidade!... A mocidade! É isto... Um aroma que atravessa o espaço...
                  Um relâmpago que ilumina a vida, para deixar saudades... Este sim! – comentava
                  Caldas consigo, lembrando-se do Argemiro ; e concluiu: – Agora a Sinhá escolheu
                  bem... Isto é, não escolheu, achou. Aquilo é amor! E, dirigindo-se ao Teles: – Vamos
                  agora cumprimentar as senhoras, com escala pelo bufê. Estou com sede.


                         O deputado acariciava o queixo nu com a mão gorducha, em que rutilava um
                  rubi. Seus olhos vivos, de pestanas curtas, furavam por entre cabeças e ombros, à
                  busca de alguém.
                         À roda comentavam o páreo. Havia descontentes; moças indignadas, outras
                  quase chorosas, rapazes amuados. Tinham perdido. Mas outros e outras
                  gesticulavam com alegria por aquele triunfo, que dava mais uma medalha ao clube
                  da sua simpatia.
                         Falava-se alto nas arquibancadas. Os sons da banda de marinheiros no
                  Toureiro da Carmen não permitiam segredos.
                         Em toda a linha do cais os guarda-sóis de cores diferentes, lembravam uma
                  vegetação movediça de cogumelos fantásticos, desde os pequeninos, das crianças
                  que assistiam à festa sentadas no paredão, com o olhar estúpido para o quadro
                  policromo, até os grandes, protetores de velhos prudentes e amigos da sombra.
                         Corria uma aragem forte. Agitavam-se no ar os galhardetes vistosos e as
                  bambinelas do pavilhão central, como a acenar a toda a gente que fosse para ali,
                  gozar aquele quadro de luz!


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