Page 103 - 2M A INTRUSA
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                  entretidas pareciam uma com a outra, que Assunção ao voltar do lavatório, preferiu ir
                  avisar Glória de que não mexesse nos caixotinhos, que eram casas de abelhas e iria
                  perturbá-las.


                         – Eu já tinha pensado nisso – respondeu a menina. – Ainda ontem D. Alice
                  me explicou, no jardim lá de casa, a vida desses bichinhos. Tudo no mundo tem
                  interesse, não é verdade? Eu tinha raiva das abelhas desde aquele dia, lembra-se?,
                  em que fui picada no pescoço por uma deste tamanho! Tive uma dor! Pois agora já
                  até quero bem às abelhas... O caso é haver quem nos explique as coisas!
                         – Que te explicou D. Alice a respeito?
                         – Que as abelhas freqüentam as flores para chupar-lhes o mel, transportando
                  o pólen de umas para as outras e...
                         – E explicou-te também o que era pólen?
                         – Certamente! Com uma flor na mão. Uma açucena!
                         – Conta tudo!
                         – Numa lição só não se pode aprender muito! Assim mesmo eu percebo bem
                  D. Alice, exatamente porque ela não ensina – conversa. Falou das abelhas... Falou
                  das mariposas, disse histórias que eu não sabia e de que gostei... Prometeu levar-
                  me à Tijuca para ver borboletas azuis muito grandes, que há lá... Mas vovó... Creio
                  que não me deixará ir só com ela... Se o senhor fosse!
                         – Irei.


                         Glória bateu palmas com alegria, mas de repente tornou-se séria, olhando
                  para uma roseira completamente coberta de flores.


                         – Queres um ramo?
                         – Não. A última vez que fomos ao cemitério encontramos uma porção
                  daquelas rosas no túmulo da mamãe... Foi o senhor! E vovó pensou que tivesse sido
                  papai!...
                         – Foi teu pai... Levou-as daqui... Mas não lhe digas nada, que ele não gosta
                  que se fale nisso! Olha para o mar!
                         – O seu jardim é muito pequenino!
                         – Basta para mim... Olha este rainúnculo...

                         Enquanto Assunção fazia Glória ver as suas flores, D. Sofia conversava com
                  Alice. Mandara subir os pequenitos. A moça pusera um nos joelhos e anelava os
                  cabelos do outro carinhosamente.
                         Que se dizia? Menos do que se adivinhava. A simpatia nascera logo entre
                  ambas. Assunção pousou por um instante os olhos nelas e desviou-os para além,
                  para o infinito... Tinha sido aquele o sonho da mãe: uma mulher moça a seu lado,
                  cercada de crianças lindas...
                         A tarde morria afogada em azul. Já no céu brilhava a meia lua, e uma neblina
                  prateada vinha da barra, cobrindo o mar.

                         – É tarde, Glória...
                         – Adeus!


                         Nessa noite, ao chá, D. Sofia disse ao filho:

                         – Aconselha Argemiro a casar-se com aquela moça. Ela fará a sua felicidade.

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