Page 147 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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–  Pois  sim!  Fácil!    replicou  o  doutor.  Segundo  a  tradição,  quem  tentar  saltar  a  nascente  é
      imediatamente tragado.  Quem quer que se aventure a apanhar ali um pouco de água  sente-se
      repelido por mão invisível.

      – E é permitido não se acreditar em nada disso?  perguntou Joe.
      – De certo. Cinco anos mais tarde, o major Laing lançou-se através do deserto, chegou até
      Tombuctu e morreu  estrangulado, alguns quilômetros acima, pelos oulad shiman,  que queriam
      obrigá-lo a tornar-se muçulmano.
      – Mais uma vítima!  comentou o caçador.
      –  Foi  então  que  um  moço  corajoso  realizou  por  conta    própria  a  mais  extraordinária  das

      viagens modernas. Refiro-me  ao francês Renato Caillié. Depois de diversas tentativas, em
      1819  c em 1824, ele partiu novamente a dezenove de abril de 1827,  do rio Nunez. No dia
      três de agosto, chegou tão exausto e  doente a Timé, que só em janeiro de 1828, seis meses
      depois,  prosseguiu a viagem. Juntou-se então a uma caravana, protegido por sua vestimenta
      oriental, atingiu o Níger a dez de  março, penetrou na cidade de Jenné, tomou embarcação no
       rio e desceu até Tombuctu, onde chegou a dez de abril.  Outro francês, Imbert, em 1670, e um
      inglês, Roberto Adams,  em 1810, talvez tenham visto a curiosa cidade, mas Renato  Caillié

      foi o primeiro europeu que dela trouxe dados exatos.  No dia quatro de maio deixou aquela
      rainha do deserto. No  dia nove fez o reconhecimento do próprio lugar onde foi assassinado o
      major Laing. A dezenove chegou a El-Araouan, o deixou essa cidade de próspero comércio
      para transpor, através de mil perigos, as vastas solidões que se estendem entre o Sudão e as
      regiões setentrionais da África. Finalmente, entrou em Tânger e no dia vinte e oito de maio

      embarcou  para    Tulono.  Em  dezenove  meses,  a  despeito  de  cento  e  oitenta    dias  de
      enfermidade, havia atravessado a África do oeste para o norte. Ah! Se Caillié tivesse nascido
      na  Inglaterra,  seria    considerado  como  o  mais  intrépido  viajante  dos  tempos  modernos  e
      colocado na mesma altura que Mungo-Park. Mas  na França não lhe dão o devido valor.
      – Era homem de fibra  opinou o caçador. E que fim  teve?
      – Morreu aos trinta e nove anos, em virtude de grandes  esforços despendidos. O cansaço
      matou-o. Acharam que era  bastante conceder-lhe o prêmio da Sociedade de Geografia  em
      1828. As maiores homenagens lhe teriam sido prestadas  na Inglaterra! Aliás, enquanto ele

      realizava sua maravilhosa  viagem, um inglês idealizava o mesmo empreendimento e o tentava
      com  a  mesma  coragem  e  a  mesma  felicidade.  Foi  o    capitão  Clapperton,  companheiro  de
      Denham. Em 1829, voltou à África pela costa oeste do golfo de Benin. Retomou  as pistas de
      Mungo-Park e de Laing, encontrou em Boussa  os documentos relativos à morte do primeiro,
      chegou a vinte  de agosto a Sacatu, onde foi feito prisioneiro e lançou o último suspiro nos

      braços de Dick Lander, seu fiel empregado.
      – E que aconteceu com esse Lander?  perguntou Joe  no auge do interesse.
      –  Conseguiu  chegar  à  costa  e  voltou  a  Londres,  trazendo    os  documentos  do  capitão  e  um
      relatório  exato  de  sua  própria    viagem.  Ofereceu,  então,  seus  serviços  ao  governo  para
      completar o reconhecimento do Níger. Juntou-se a ele o irmão  John e ambos, entre 1829 e
      1831, tornaram a descer o rio  desde Boussa até à embocadura, descrevendo-o aldeia por
       aldeia, quilômetro por quilômetro.

      – Então esses dois irmãos escaparam à má sorte dos  outros?  indagou Kennedy.
      – Sim, pelo menos durante essa exploração, pois em 1833  Dick realizou terceira viagem ao
      Níger. Uma bala perdida matou-o perto da foz do rio. Como vêem, meus amigos,  esta região
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