Page 146 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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– Foi ali que Barth atravessou o Níger ao voltar de Tombuctu. Lá está o rio famoso na
antiguidade, o rival do Nilo, ao qual a superstição pagã deu origem celeste. Preocupou
sempre a atenção dos geógrafos de todos os tempos a sua exploração que, como a do Nilo,
causou numerosas vitimas.
O Níger corria entre duas margens largamente separadas.
Suas águas rolavam com certa violência, para o sul, mas os viajantes, levados pelo vento, mal
puderam apreciar-lhe os curiosos contornos.
– Vou-lhes falar sobre este rio que já se afasta de nós declarou Fergusson. Sob os nomes de
Dhiouleba, de Maio, de Eggkirreou, de Quorra e outros ainda, ele percorre extensão imensa
de terra e quase rivaliza em comprimento com o Nilo. Esses nomes significam simplesmente
o rio, conforme as regiões que atravessa.
– Terá o doutor Barth seguido este caminho? perguntou Kennedy.
– Não, Dick. Deixando o lago Tchad, atravessou as cidades principais do Bornu e veio cortar
o Níger em Sai, quatro graus acima de Gao. Penetrou depois no seio das regiões inexploradas
na parte em que o Níger forma espécie de cotovelo e, depois de oito meses de novas fadigas,
conseguiu chegar a Tombuctu, o mesmo percurso que agora faremos em três dias apenas, se o
vento for favorável.
– As nascentes do Níger foram descobertas? indagou Joe.
– Há muito tempo respondeu o doutor. O reconhecimento do Níger e dos seus afluentes atraiu
inúmeras explorações, e posso indicar-lhes as principais. De 1749 a 1758, Adamson
descobre o rio e visita Goréa. De 1785 a 1788, Golberry e Geoffroy percorrem os desertos da
Senegambia e sobem até à região dos mouros, que assassinaram Saugnier, Brisson, Adam,
Riley, Cochelet e tantos outros desventurados. Surge então o ilustre Mungo-Park, o amigo de
Válter Scott, escocês como ele. Enviado em 1795 pela Sociedade Africana de Londres,
chega a Bambarra, vê o Níger, percorre mil quilômetros em companhia de um mercador de
escravos, descobre o rio de Gambia e volta para a Inglaterra em 1797. Torna a partir a trinta
de janeiro de 1805 com o cunhado de nome Anderson, com o desenhista Scott e com um grupo
de operários. Chegando à Goréa, a eles se associa um destacamento de trinta e cinco
soldados. Revê o Níger no dia dezenove de agosto, mas, então, devido ao cansaço, aos maus
tratos, às inclemências do céu e à insalubridade da região, só restavam onze vivos dentre os
quarenta europeus da expedição. Chegaram as últimas cartas de Mungo-Park para a esposa no
dia dezesseis de novembro e, um ano mais tarde, soube-se por comerciante daquela região
que, ao chegar a Boussa, sobre o Níger, no dia vinte e três de dezembro, viu o infeliz viajante
que as cataratas do rio lhe tinham destruído a barca e acrescentou que os indígenas acabaram
por massacrá-lo.
– E esse fim terrível não deteve os exploradores?
– Pelo contrário, Dick, porque então eram obrigados não só a fazer o reconhecimento do rio
como a encontrar os documentos dos viajantes. Já em 1816 se organiza expedição em
Londres e dela faz parte o major Gray. Tal grupo chega ao Senegal, penetra no Fouta-Djallon,
visita as populações fulahs e mandingues e volta à Inglaterra sem qualquer resultado. Em
1822, o major Laing explora toda a parte da África ocidental vizinha das possessões inglesas
e foi ele que chegou às fontes do Níger. Segundo os documentos desse explorador não chega a
setenta centímetros de largura a nascente do rio imenso.
– Fácil de saltar observou Joe.

