Page 79 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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INTERVENÇÃO DIVINA
O vento ia-se tornando violento e irregular. O vitória dava autênticas reviravoltas nos ares.
Arrojado às vezes para o norte, outras para o sul, não havia meio de encontrar
sopro constante.
– Andamos muito depressa, mas sem avançar muito, observou Kennedy, reparando nas
freqüentes oscilações da agulha magnética.
– O Vitória corre com velocidade de pelo menos sessenta quilômetros à hora esclareceu
Samuel Fergusson. Debruce-se e veja como a terra foge rapidamente debaixo dos nossos pés.
Olhe! Até parece que a floresta vai precipitar-se contra nós!
– A floresta já se mudou em clareira respondeu o caçador.
– E a clareira em aldeia acrescentou Joe, instantes depois. Vejam as caras espantadas
daqueles negros!
– É natural tornou o doutor. Os camponeses de França quando, pela primeira vez, viram
balões, dispararam as suas armas contra ele, tomando-os por monstros aéreos, não sendo,
portanto, demais que um negro do Sudão arregale os olhos.
– Por Deus! acudiu Joe, quando o Vitória passava sobre uma aldeia a trinta metros do chão.
Com sua licença, vou-lhes atirar uma garrafa vazia, meu amo! Se ela chegar inteira, vão
adorá-la. Se se quebrar, farão amuletos com os cacos! Assim dizendo, jogou uma garrafa,
que, como era de esperar, se quebrou em mil pedaços, enquanto os indígenas corriam para as
suas redondas cubatas, soltando grandes brados. Pouco mais adiante, Kennedy exclamou:
– Reparem que estranha árvore aquela! A parte de cima é de uma espécie e a de baixo, de
outra! Essa é boa comentou Joe. Por aqui as árvores crescem uma sobre as outras.
– É simplesmente um tronco de figueira explicou o doutor sobre a qual se depositou um
pouco de terra vegetal. Um belo dia, o vento atirou lá um grão de palmeira, que se
desenvolveu como em pleno campo.
– É um método interessante disse Joe que eu vou introduzir na Inglaterra. Dará muita vida
aos parques de Londres. Sem se falar que é meio de multiplicar as árvores frutíferas e
construir jardins suspensos. Os pequenos proprietários iriam achar a idéia ótima. Naquele
momento foi necessário dar maior altura ao Vitória para que ele pudesse transpor floresta de
árvores com mais de dez metros, espécie de banianas seculares.
– Que árvores formidáveis! exclamou Kennedy. Nunca vi coisa tão bonita como esta floresta!
Repare só, Samuel.
– A altura das árvores é uma coisa maravilhosa, meu caro Dick. No entanto, não seria nada de
extraordinário nas florestas do Novo Mundo.
– Como? Existem árvores mais altas?
– Claro que sim, entre as que chamamos de árvores mamutes. Na Califórnia, por exemplo,
encontrou-se um cedro com cento e cinqüenta metros de altura, mais alta que a torre do
Parlamento inglês e até que a grande pirâmide do Egito. A base tinha quarenta metros de
circunferência e as camadas concêntricas do bosque onde estava localizada indicavam mais
de quatro mil anos de existência.

